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Letras: com todas as LETRAS - O Cortiço
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O Cortiço - Contexto Histórico  

Por Isabel Amadeu, Mayra Rossini, Silvana das Neves e Annie Baracat - UNIP

Com o fim do tráfico de escravos, a economia açucareira passa a sofrer grande decadência, e a região sul passa a ter maior destaque com a economia cafeeira. As classes médias urbanas passavam a ter idéias liberais, abolicionistas e republicanas. De 1870 a 1890 essas idéias vão se tornando cada vez mais repetitivas ao pensamento europeu que na época girava em torno do positivismo e do evolucionismo. Muitos escritores como Tobias Barreto, Euclides da Cunha e Graça Aranha foram influenciados por Comte, Taine, Spencer, Darwin e Haeckel, durante a luta contra as tradições e o espírito monárquico.

A partir de 1870, a questão da abolição da escravatura e da república passavam a ser o centro das ideologias do homem culto brasileiro. Na verdade, queria-se a expansão de uma ideologia que tomava aos evolucionistas idéias para acabar com o ideal romântico, que ainda existia naquela época. Daí em diante, passam a existir duas correntes ideológicas na Europa: o pensamento burguês, conservador, e o pensamento das classes médias, que assume a postura liberalista e socialista.

A primeira mudança é o modo de o autor relacionar-se com o conteúdo de sua obra. O romântico faz uso demasiado de sentidos e patriotismo e mitifica os temas que escolhe. É esse conjunto de ideologias que a literatura realista critica. O escritor anti-romântico usa da impessoalidade para falar de objetos e pessoas. Essa necessidade de ser objetivo, é que faz com que esse escritor apóie-se nos métodos científicos da época.

Flaubert, Zola e Anatole foram os mestres dessa objetividade na ficção; Comte, Taine e Renan, no pensamento e na história. Em segundo plano, Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão e Antero de Quental, que em Coimbra tentavam abalar velhos preconceitos. Em relação a Machado de Assis, a procura pela linha humorística pesou sobre a sua eleição de leituras inglesas.

O escritor realista tem como norma o distanciamento da subjetividade. A aceitação da existência tal como ela se dá aos sentidos desdobra-se em dois planos complementares: no nível ideológico, no sentido da explicação do real, a certeza de uma situação irreversível, concretiza-se no determinismo. No nível estético, onde o ato de escrever tem a liberdade reconhecida implicitamente, resta ao escritor a não inovação. O cuidado estilístico, à vontade de criar algo novo, têm origem e alimentam-se do pessimismo que vem da ideologia determinista.

O realismo passará ao naturalismo sempre que houver personagens e enredos que aceitam o destino das leis naturais que a ciência da época pensava ter codificado.

A literatura realista naturalista é, na verdade, uma literatura triste. Mostra todos os defeitos de uma sociedade, exatamente o oposto do romantismo, repletos de heróis e heroínas, que sofriam por seus amores e por sua pátria.

O Realismo narra os costumes contemporâneos da primeira metade do século XIX. As falcatruas da vida pública e os contrastes da vida íntima são mostrados. Para ambos os casos, buscam-se causas naturais (raça, clima, temperatura) ou culturais (meio, educação). O escritor realista sente-se no dever de descobrir a verdade de seus personagens. Nada de lirismos, reflexões.

Enquanto o escritor romântico eleva a beleza excepcional, o naturalista julga interessante o patológico, porque prova a dependência do homem em relação às leis naturais.

Dessa forma, de uma corrente literária a outra, (Romantismo ao Realismo), houve uma passagem da subjetividade, do ideal ao fato. Quanto ao modo de escrever, à composição das personagens, os autores realistas brasileiros procuram obter maior coerência na organização dos episódios, que deixariam de ter uma série de caprichos, para serem compostos por necessidades objetivas do meio ou da estrutura moral das personagens.

 

O Período Literário

No Brasil, o período realista-naturalista ocorreu entre 1881 a 1902. Tal período foi marcado pelo determinismo de Taine, o positivismo de Comte e o evolucionismo de Darwin.

O cientificismo somado à industrialização e a vitória do capitalismo geram a queda da aristocracia e a ascensão da burguesia. Neste período surge a luta de classes, pois nessa mesma época houve o despertar da consciência da classe de proletariados, influenciado por Marx.

Concomitantemente a este momento, começa a surgir uma exigência de que a arte tivesse utilizado o social, ou seja, a obra literária só era interessante se possuísse cunho político-social. Apesar disso, uma minoria, que acabou sendo sufocada, defendia a arte pela arte.

As idéias científicas e filosóficas do Realismo tiveram grande participação na formação de uma mentalidade no Brasil. Muitos intelectuais da época, ligados aos meios de comunicação, e que vinham de setores médios da população empenhavam-se numa atitude de engajação, que tinha por objetivo a transformação social.

A arte realista-naturalista correspondeu ao período de consolidação do poder político da burguesia, na segunda metade do século XIX. Essa classe social tinha o seu gosto estético orientado para uma arte racional, considerando não-artístico os excessos sentimentais românticos. Uma arte responsável, isto é, com os critérios de responsabilidade que utilizava na condução dos negócios do Estado. O realismo-naturalismo, entretanto, ultrapassou esses limites. Foi uma arte inovadora e voltada para interesses populares. Os ideais de socialismo “utópicos” , como Pierre Joseph Proudhon, sensibilizaram artistas dessa época, como o escritor Èmile Zola, ou o pintor Gustave Coubert, que vieram defender a aproximação entre a verdade social e a verdade artística.

Os conceitos de realismo e de naturalismo confluíram para o ideal positivista desse período histórico. Pressupunham uma submissão do texto artístico à realidade. Ao artista importava a observação e a experiência empírica, e não a idealização da realidade que caracterizou o Romantismo. Realismo e Naturalismo, não são sinônimos. Entretanto muitos teóricos afirmam que são duas faces da mesma moeda.

 

Momento histórico do realismo e do Naturalismo no Brasil

            “O que há de política? É a pergunta que naturalmente ocorre a todos, e a que me fará o meu leitor, se não é ministro. O silêncio é a resposta. Não há nada absolutamente nada. A tela da atualidade política é uma paisagem uniforme; nada a perturba, nada a modifica. Dir-se-ia um país onde o povo só sabe que existe politicamente quando ouve o fisco bater-lhe a porta. O que dá razão a esse marasmo?”

(Machado de Assis, crônica publicada no diário do Rio de Janeiro em 1/12/1861).

 

            No Brasil do Segundo Reinado (1840 – 1889), enquanto D Pedro II escolhe o senador ou o deputado para o cargo de primeiro-ministro, com a convivência tanto do partido Liberal, quanto do Conservador, numa espécie de “parlamentarismo às avessas” a população ignora essas decisões governamentais, preocupando-se com a sobrevivência imediata do dia a dia.  Daí a comentada “tranqüilidade política” do período: liberais e conservadores, que o Imperador habilmente encaminha, revezam-se no poder, sempre de acordo com os interesses da oligarquia agrária.

            Do ponto de vista econômico, o Brasil, ao longo da segunda metade do séc XIX, mantém uma estrutura socioeconômica baseada do latifúndio, na monocultura de exportação a esta altura já voltada para a produção do café e na mão de obra escrava.

            Assim, é a oligarquia agrária quem: “dá as cartas” na economia e na política do país, embora as pressões internacionais visando ao desenvolvimento do capitalismo industrial encaminhem-se no sentido da modernização do país, que se faz com lentidão.

            No entanto por volta de 1870 um conjunto de fatos, essencialmente ligados à referida modernização, começa a desestabilizar o panorama apresentado: o tráfico negreiro é proibido, aumenta a mão de obra imigrante, desenvolve-se a industria cafeeira no interior de São Paulo, constroem-se ferrovias, crescem cidade concentradoras de fábricas. Nelas se forma uma classe média urbana, insatisfeita com a falta de representatividade política.

            Essa classe, sem espaço no esquema de revezamento dos partidos Liberal e Conservador, no poder apóia-se, então, no Exército e aceita a liderança dos cafeicultores paulistas, responsáveis pela introdução do trabalho assalariado no país e defensores de mudanças estruturais, como a substituição da Monarquia desgastada e reacionária, pela República.

            Entretanto, proclamada em 1889 a República viria a frustrar as ambições da classe média e também das Forças Armadas: os representantes das oligarquias de São Paulo e de Minas Gerais passam a controlar o Estado brasileiro, por meio de uma aliança política conhecida como Políticas dos Governadores ou Política do café-com-leite.

            Em conclusão, os conflitos não se resolvem: por um lado o Brasil é um país de idéias liberais, republicanas, “modernas” e, por outro, convive com a “humilhação” de uma estrutura econômica-política oligárquica, agrária, coronelista e latifundiária.

            Entre as idéias modernas vindas da Europa, destacam-se as doutrinas positivistas e deterministas que deram fundamento à literatura pós-romântica. Essa literatura realizou-se distintamente em cada uma das chamadas Escolas Realistas.

 

O Realismo e o Naturalismo no Brasil

            Iniciados oficialmente em 1881, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (marco do surgimento do Realismo) e O Mulato, de Aluísio Azevedo (marco do surgimento do Naturalismo), e enfraquecidos por volta de 1890, quando floresce o Parnasianismo o advento do Realismo e do Naturalismo em nosso país ocorre numa data que se tornou simbólica para a literatura brasileira.

            Como mostra Lucia Miguel-Pereira “o ano de 1881 foi dos mais significativos e importantes para a ficção no Brasil, pois que nele se publicaram as Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis (...), e O Mulato de Aluísio de Azevedo. (...) Havia (...) nesses dois livros de índoles tão diversas um traço comum: em ambos triunfava a observação. (...) dois escritores patenteavam repentinamente uma liberdade até então desconhecida, e conferiam assim ao romance um novo alcance. Começou-se a escrever para procurar a verdade, e não mais para ocupar os ócios das senhoras sentimentais e de um ou outro cavalheiro dado a leituras frívolas.” (História da Literatura Brasileira. Prosa de Ficção (1870 a 1920) Rio de Janeiro, livraria José Olympio).

            A partir de ambos os escritores podemos, então, esboçar o panorama de nossa ficção ao longo da segunda metade do séc. XIX. Enquanto Machado de Assis desenvolve um realismo psicológico e universal, que “sela nossa independência literária”, a partir das Memórias Póstumas de Brás Cubas consolidando-a em outras obras de sua maioridade literária, tais como Dom Casmurro e Quincas Borba, Aluisio Azevedo torna-se o líder da presença do estilo naturalista entre nós.

 

As teorias científicas na obra literária O Cortiço

            As teorias científicas da época eram utilizadas para explicar os problemas sociais o que nos leva a crer que o escritor realista é muito mais um crítico social do que simplesmente um escritor. O pensamento cientificista também é responsável término do prazer que a paisagem dava aos escritores românticos.

            Teorias como o positivismo, o determinismo, o evolucionismo e o marxicismo, são encontradas nas obras realistas-naturalista. Excetuando o marxicismo, todas as outras teorias estão presentes em O cortiço.

            Aluísio procurava entender o cientificismo que é a ciência como o único conhecimento, substituindo assim, a visão subjetiva reinante nos romances românticos para uma visão totalmente objetiva, portanto ser objetivo e imparcial era a grande preocupação do autor de O Cortiço.

            Na obra de Aluísio, há uma preocupação em relatar questões polêmicas como, por exemplo, a escravidão, o preconceito, o adultério etc. Fala ainda, o autor, sobre as agruras do cotidiano, a pobreza, a prostituição, a ganância, a exploração do homem pelo homem deixando bastante claro que o “mundo pertence aos mais espertos”. Todas essas “deficiências” sociais são ressaltadas durante toda a obra.

            Vejamos como Aluísio Azevedo comenta a escravidão nesta obra:

                                    “... A escrava passara naturalmente em herança a qualquer dos filhos do morto; mas, por estes, nada havia que recear: dois pândegos de marca maior que, empolgada e legítima, cuidariam de tudo, menos de atirar-se na pista de uma crioula a quem não viam...” (p.17)

 

            O adultério é evidenciado em trechos como:

                                    “... mudar-se-ia ele para lá com a família, pois que a mulher, Dona Estela, senhora pretensiosa já não podia suportar a residência no centro da cidade, como também sua menina, a Zulmirinha, crescia muito pálida e precisava de largueza para enrijar e tomar corpo”.

                                    Isto foi o que disse Miranda aos colegas, porém a verdadeira causa da mudança estava na necessidade, que ele, reconhecia urgente, de afastar Dona Estela do alcance de seus caixeiros.” (p.19)

 

POSITIVISMO

            Comte prega a transformação da sociedade através de normas necessárias para reformá-la, conduzindo-a a uma etapa positiva. Deve-se fazer observação, experiência comparação. Para amenizar os problemas da sociedade na época, deveria haver uma reorganização de crenças e costume. Sendo assim, a educação e a estrutura familiar seriam fundamentais para o êxito dessa teoria.

            Notamos, em alguns trechos da obra O cortiço características positivistas, como, por exemplo, a preocupação de Jerônimo em manter sua filha em um colégio, no intuito que ela tivesse melhores chances de vida.

            “... E, defronte do cabedeiro de querosene, conversavam sobre a sua vida e sobre a sua Marianita, a filhinha que estava no colégio e que só os visitava aos domingos e dias santos”.

                                   

DETERMINISMO

            Segundo Taine, tudo, inclusive a arte, é produto do meio, a raça e do momento histórico. Para ele todo o agir humano é determinado por variáveis biológicas. Ou seja, todas as suas vontades e ações não são livres, no sentido de uma determinação racional e espontânea do sujeito, e sim resultado de mecanismos biológicos.

O determinismo aparece na perspectiva em que os narradores criam suas personagens. A suposta neutralidade não oculta o fato do autor sempre carregar de tons sombrios, o destino de suas personagens.

            De acordo com esta teoria quem nasceu pobre, vai morrer pobre, empregado jamais será patrão, filha de prostituta será prostituta. Teoria um tanto quanto radical que encontramos presente em praticamente todos os momentos da obra O cortiço.

            A narrativa demonstra do início ao fim que a teoria de Taine é absolutamente predominante, mostra que, maior parte das pessoas pobres está acomodada com sua situação e acreditam que aquela vida um tanto quanto “lamentável” é o destino de cada um deles.

            Dentre outros personagens, ao contrário do que muitos pensam, Bertoleza fugia ao determinismo e preferiu tirar a própria vida a aceitar o seu cruel destino.

            A crioula Bertoleza trabalhava duro para pagar sua alforria, não se contentava em ser escrava. Para nós o fato de ela ter continuado sendo escrava de João Romão não tirou dela o desejo de obter uma vida melhor. Poderia, ter-se envolvido com homens de sua raça, mas preferia se envolver com pessoas, em tese, superiores como no caso de João Romão.

            “Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um calafrio percorreu-lhe o corpo. Num relance compreendeu a situação; adivinhou tudo com lucidez de quem se vê perdido para sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma mentira...” (p.206)

            ...antes que alguém conseguisse alcança-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lado.” (p. 207)

                                   

 

EVOLUCIONISMO

            Destaca entre outras coisas a permanente concorrência entre os indivíduos como base da transformação social. 

            Como exemplo disso podemos citar a concorrência desenfreada entre João Romão e Miranda, a inveja que um sentia do outro etc...

            “Travou-se então uma luta renhida e surda entre o português negociante de fazendas por atacado e o português negociante de secos e molhados...” (p.22)

  

Análise das Personagens

 

PIEDADE

A personagem Piedade foi escolhida pelo grupo, devido a ser a única personagem diferente em meio a tantas outras iguais. Essa diferença foi identificada no que diz sentido aos princípios morais sólidos e bom caráter que possuía. 

O autor cria Piedade inspirando-se no modelo da mulher “Amélia”. Aquela que é subserviente, obediente, honesta, corretíssima, fiel, sem qualquer vaidade, vive para o marido e em função dele.

            Piedade foi concebida pelo autor no intuito de demonstrar que, em uma época de poucos valores morais, onde reinava a ambição, a hipocrisia, a falta de caráter e a leviandade, manter princípios morais sólidos e a integridade era praticamente impossível.

O perfil de Piedade era o oposto de Rita Baiana e de outras mulheres fortes e decididas que viviam no cortiço. Ela era tranqüila, nostálgica, conservava os hábitos e a rotina de sua terra natal, não deixava se envolver pelo meio mantinha suas tradições e a esperança de crescer junto com o seu marido em uma terra nova. Ela mantinha essas particularidades enraizadas e, dificilmente, absorveria os costumes e a cultura brasileira.

Mas, ao contrário do que podia parecer, Piedade era uma mulher perspicaz e esperta, percebia dia-a-dia as mudanças do marido e tinha consciência de que iria perdê-lo.

            “(...)Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de toda fêmea pelas outras, quando sente seu ninho exposto”. (p.77)

 

            Insegura em relação ao seu marido, Piedade tentar adaptar-se àquela vida leviana e medíocre que levavam no cortiço, mas em razão de seus valores morais sólidos, essa tentativa era em vão.

            Fiel ao seu homem e a seus princípios ela tinha absoluta certeza de que ele fora seduzido pela vulgaridade de Rita Baiana e, para ela, seu marido era tão somente uma vítima.

            Ao analisarmos o perfil de Piedade caímos em um dilema profundo, pois, o autor faz de Piedade uma mulher ambígua, ou seja: forte e fraca. Forte quando consegue administrar a indiferença do marido e seu envolvimento com Rita Baiana, suporta aquelas humilhações para manter seu casamento. Deixa transparecer também, que é uma mulher forte pelo fato de não deixar-se envolver pelo meio em que viviam. .

“Continuava a ser a mesma colona saudosa e desconsolada, tão fiel às suas tradições como a seu marido”.

                                   

Ela resistiu a essa cultura o máximo que pode, depois acabou se degradando por desilusão e por não se adaptar ao meio.

(...)Começou a afundar sem resistência na lama do seu desgosto, covardemente, sem forças para iludir-se com uma esperança fátua, abandonando-se ao abandono, desistindo dos seus princípios e de seu próprio caráter...(p.175)

                                   

Diante disso, fica uma crítica do autor à mulher que é criada para ser esposa e ressalta que tanta virtude, às vezes, pode ser um mal.

 

ESTELA

Estela foi escolhida pelo grupo por sua hipocrisia e sadismo, uma mulher que infringiu as regras da  sociedade sob  a proteção do marido.

Estela recebeu vida na obra de Aluísio como uma crítica ao casamento e, sobretudo ao casamento de conveniência existente na época.

            Ela desperta curiosidade, pois, a princípio, parece-nos uma vítima de uma sociedade que obrigava uma moça a casar-se “comercialmente”. Todavia, ao longo da narrativa ela mostra-se hipócrita e insolente. A pergunta feita é a seguinte: se ela tinha coragem para trair o marido, por que não tinha coragem para romper barreiras e ir atrás de sua própria liberdade? Por isso, a conclusão a que chegamos é de que Estela, dentre todos os outros personagens, era a mais manipuladora, sádica, sarcástica e de uma crueldade sem tamanho.

                                    “... Ah! Ela contava como certo que o esposo, desde que não teve coragem de separar-se de casa, havia, mais cedo ou mais tarde, de procurá-la de novo. Conhecia-lhe o temperamento, forte para desejar e fraco para resistir ao desejo.” (p.20)

           

Estela não tinha pudores, era uma mulher leviana, dominadora e tinha plena consciência de que o marido era um homem fraco para quem as aparências valiam muito mais que o amor e o respeito próprio.

“... Estela recebeu-o desta vez como da primeira, fingindo que não acordava; na ocasião, porém, em que ele se apoderava dela febrilmente, a leviana, sem se poder conter, soltou-lhe em cheio contra o rosto uma gargalhada que a custo sopeava”.(p.20)

 

            Estela, ao contrário de Piedade, não possui princípios morais, é uma prostituta escondida sob o manto de “dama”. Ela conhece o ódio do marido por ela, mas sabe que mesmo a odiando e mantendo com ela um casamento de aparências, ele não resiste aos seus impulsos sexuais e a procura, causando–lhe uma estranha sensação de poder e dominação.

Estela é tão egoísta que nem o papel de mãe consegue exercer. Não possui sequer amor maternal e enxerga na filha o reflexo odioso de Miranda. 

            Entendemos, que Estela não se entrega aos prazeres sexuais como refúgio, mas sim por ter noções totalmente desconsertadas de moral e dignidade.

            Assim, Estela é uma mulher fútil que, certamente, foi espelhada em muitas outras que viviam aquela época.

 

Análise do Foco Narrativo

        “Desistindo de montar um enredo em função de pessoas, Aluísio atenuou com a fórmula que se ajustava ao seu talento, ateve-se à seqüência de descrições muito precisas, onde cenas coletivas e tipos psicologicamente primários fazem, no conjunto, do cortiço  a personagem mais convincente do nosso romance naturalista.”

 

       Alfredo Bosi

 

        A vida deve ser mostrada pela literatura e pela arte em geral, não como gostariam que ela fosse, mas como realmente ela é. O realismo propôs-se a mostrá-la com tudo o que nela há de bom ou de mau, feio ou belo, moral e imoral. Esse objetivo foi mais teórico do que prático.

O narrador em O cortiço, é onisciente. Tem domínio sobre os pensamentos e atitudes das personagens. Na obra realista-naturalista o narrador deve manter-se durante toda a narrativa, imparcial, mas percebe-se em O cortiço a afinidade e a repugnância de Aluísio Azevedo por este ou aquele personagem. É possível perceber que o narrador é extremamente detalhista e conhece a fundo todas as características físicas e psicológicas das personagens:

 

          " Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui : ela era a luz ardente do meio-dia, ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoava nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel  e era a castanha do caju, que abre feridas com seu azeite de fogo; ela era a cobra verde  e traiçoeira , a lagarta viçosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito  tempo em torno do corpo dele, assanhando-se os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias , para lhe cuspir dentro do sangue um centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno de Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca."

 

Enquanto no romantismo as personagens são lineares, construídas de maneira idealizada, com atitudes plenamente previsíveis e padronizadas (mocinho caça-dotes, mas bem intencionado; mocinha encalhada e casadeira) , no realismo, alguns autores valorizam as personagens esféricas, que apresentam, simultaneamente várias qualidades e características: são complexas, multifacetadas e conflituosas, assumindo posturas dinâmicas e evolutivas , com profundidade psicológica, não raro pessimista.

Veremos nos exemplos abaixo, a evolução de Pombinha e as multifaces de Leonie.

 

Pombinha:

          “Pombinha era muito querida por aquela gente. Era quem lhe escrevia as cartas; quem em geral fazia o rol para as lavadeiras; quem tirava as contas; quem lia o jornal para os que quisessem ouvir. Prezavam-na com muito respeito  e davam-lhe presentes, o que lhe permitia certo luxo relativo. Andava sempre de botinas  ou sapatinhos com meias de cor, seu vestido de chita engomado; tinha as suas joiazinhas  para ir à rua, e, aos domingos, quem a encontrasse à missa na igreja de São João Batista, não seria capaz de desconfiar que ela morava em cortiço." (p. 40)

 

         “O que mais a desgostava, e o que ela não podia tolerar sem apertos de coração, era ver a pequena endemoninhar-se com champanha depois do jantar e pôr-se a dizer tolices e a estender-se ali mesmo no colo dos homens. Chorava sempre que a via entrar ébria, fora de horas, depois de uma orgia; e, de desgosto em desgosto, foi-se sentindo enfraquecer e enfermar , até cair de cama e mudar-se para uma casa de saúde, onde afinal morreu.” (p. 200, 201)

 

Leonie:

“ E, enquanto Juju percorria a estalagem, conduzida em triunfo, Leonie nacasa da comadre, cercada por uma roda de lavadeiras e crianças discreteava sobre assuntos sérios, falando compassadamente, cheia de inflexões de pessoa prática e ajuizada, condenando maus atos e desvarios, aplaudindo a moral e a virtude.” (p. 96)

 

“ E devorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que sufocavam a menina, enchendo-a de espanto e de um instintivo temor, cuja origem a pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era.

(...) Leonie fingia prestar-lhe atenção e nada mais fazia do que afagar-lhe a cintura, as coxas e o colo. Depois, como que distraidamente, começou a desabotoar-lhe o corpinho do vestido.” (p. 119)

Os termos sexuais são utilizados de forma a chocar os padrões morais do leitor . Além disso, aparecem constantemente os termos e vocábulos de baixo calão.

Durante a narrativa, notamos a presença do narrador onisciente e do narrador onisciente intruso. Fica claro então, como dito anteriormente, que o narrador de O cortiço, não é tão imparcial quanto deveria ser um narrador de uma obra realista naturalista. Vejamos os exemplos :

 

Narrador Onisciente

        “À proporção que os dois se aproximavam da imponente pedreira, o terreno ia-se tornando mais e mais cascalhudo; os sapatos enfarinhavam-se de uma poeira clara . Mais adiante, por aqui e por ali, havia muitas carroças, algumas em movimento, puxadas a burro e cheias de calhaus partidos; outras já prontas para seguir, à espera do animal, e outras enfim com os braços para o ar, como se acabassem de ser despejadas naquele instante. Homens labutavam.” (p. 47)

 

Narrador Onisciente Intruso

       “Seguia-se a Paula , uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes de que só ela dispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio de rezas e feitiçarias. Era extremamente feia, grossa, triste, com olhos desvairados, dentes cortados à navalha, formando ponta, como dentes de cão, cabelos lisos, escorridos  e ainda retintos apesar da idade. Chamavam-lhe "Bruxa". (p. 38)

No que diz respeito ao envolvimento emocional do narrador, percebemos durante toda a narrativa que este demonstra maior simpatia por determinados personagens, e aversão a outros. O narrador demonstra seu envolvimento emocional durante todo o tempo, seja ressaltando aspectos positivos de uns ou negativos de outros.

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