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Apple, M.W. “Magistério e trabalho feminino”

Por Mayra Rossini

O texto de M.W. Apple nos faz entender o porquê do curso de magistério ser considerado “curso de espera marido”.

A autora nos coloca a par de como as mulheres passaram a exercer a função de professoras e mestras. Tudo teve início por volta de 1870: à medida que a educação elementar de massa sofre aumento, as mulheres passam a “tomar” o lugar dos homens na carreira do magistério. Até então, os homens eram maioria, como em tantos outros trabalhos. Como se sabe, e a própria autora do texto menciona, qualquer trabalho exercido pela mulher, mesmo que ocupando cargo idêntico ao do homem, tem remuneração inferior. No magistério não foi diferente.

As mulheres passaram a fazer parte dessa carreira, devido a esta lhes dar impressão de ascensão social. Ganhava-se melhor do que numa fábrica e tinha-se melhores condições de trabalho, no que diz respeito a instalações. Assim, em 1930, havia quatro professoras para cada professor. Outro fator que contribuiu para que as mulheres ingressassem no magistério, foi o fato de que esse trabalho era considerado extensão daquilo que elas faziam em casa, ou seja, cuidar de crianças, além é claro, de que devido ao aumento da escolaridade obrigatória, os custos das escolas distritais cresceram e a única solução para o controle desses gastos, era contratar uma mão de obra mais barata: mulheres. Estas, apesar de mais numerosas recebiam 2/3 do salário de um homem. Vale lembrar, que esta é uma realidade dos Estados Unidos e da Inglaterra, mas não diferente da realidade do Brasil.

Esta “chance” dada às mulheres de exercer essa função só ocorreu porque os homens a abandonaram. Segundo Apple, os homens ensinavam em tempo parcial, ou seja, não era necessário que eles largassem suas funções para ensinar. Era possível ensinar no inverno, e cuidar da lavoura no verão. Um advogado, um padre poderiam dar aula esporadicamente só para agradar à comunidade da qual faziam parte. A partir do momento que os períodos letivos aumentaram os padrões de ensino passaram a se elevar, os homens passaram a abandonar a arte de lecionar, pois já não consideravam a atividade suficientemente rentável.

Devido a essas novas condições de trabalho, as mulheres passaram a lutar por essa fatia do bolo, que lhes parecia tão suculenta. Apesar de continuarem sendo recrutadas para trabalhar nas fábricas, tinham a oportunidade de lecionar. Criou-se então, a relação entre magistério e domesticidade. Muitos passaram a argumentar que o magistério seria a preparação da mulher para a maternidade.

Mas a descriminação não pára por aí. Muitos homens continuaram na educação, só que agora, como chefes: não lecionavam mais, mas diziam às mulheres o que, e como, deveriam ensinar. Tudo era extremamente previsto. Aquelas que estudavam nas escolas normais reproduziam mais tarde, exatamente o que haviam aprendido aos seus alunos. Não havia autonomia.

Todos esses aspectos negativos nos levam a crer que as mulheres escolhiam a carreira do magistério para não precisarem se submeter a trabalhar como costureiras, lavadeiras, faxineiras etc. Claro que não podemos generalizar, pois muitos escolhiam a carreira para tentar ensinar aquilo que julgavam interessante, para poder quem sabe promover uma grande mudança social. Infelizmente a grande maioria, tinha o magistério, como uma carreira temporária. As mulheres eram “treinadas” para exercer uma função temporariamente, para sustentarem-se enquanto solteiras, e na verdade almejavam um bom casamento, ou seja, eram professoras enquanto não se casavam. Quando contraíam o tão esperado matrimônio, deixavam de ser professoras, afinal, de acordo com os padrões da época, lugar de mulher é em casa cuidando de marido e filhos. Enfim, exerciam a carreira do magistério à espera de seus maridos. Daí: “curso de espera marido”.

Apesar de todos esses fatores citados, as mulheres da classe média, passaram também a querer ingressar no magistério. Havia sim, uma distinção de classes muito evidente: as meninas da classe média eram criadas para serem esposa e mãe prefeita. O fato de as mulheres da classe trabalhadora serem remuneradas afastava o ideal burguês de domesticidade. As mulheres da classe média passavam então a participar de atividades sociais e econômicas.

A participação das mulheres da classe média na carreira do magistério contribuiu para que houvessem melhoras na educação feminina. Mas a discriminação continuou, primeiro entre as próprias mulheres: mulheres de classe média ensinavam em colégios particulares de meninas, preferencialmente da classe média; as da classe trabalhadora ensinavam em colégios públicos para crianças de ambos os sexos provenientes de classes trabalhadoras. Depois, novamente, entre os dois sexos: homens e mulheres eram avaliados, nos testes de admissão em matérias como ditado, escrita, gramática, geografia, entre outras, mas só os homens eram testados em álgebra e geometria e só as mulheres tinham economia doméstica e bordado. As mulheres da classe média tinham “bordado ornamental” e as da classe média “costura prática”.

A prova maior da discriminação, da falta de consideração pelo trabalho da mulher, naquela época, é com certeza o contrato de trabalho que Apple nos mostra em seu texto: as mulheres não podiam casar-se, beber, fumar ou andar em companhia de homens, que não pai ou irmão, com pena de serem imediatamente demitidas. Com certeza, melhor seria entrar para um convento. As freiras tinham maiores regalias, pois além das “professoras” ganharem menos, havia distinção entre classes e ainda era necessário abrir mão de sua vida particular.

Felizmente, Apple conclui seu texto informando-nos que as professoras não se mostraram pacíficas frente a essas condições de trabalho, desde as instalações das escolas, até os salários. Criaram sindicatos, e conseguiram ter maior controle sobre aquilo que ensinavam.

Tudo isso, me faz chegar a uma única conclusão: as mulheres, sempre descriminadas e sofrendo preconceitos foram capazes de transpor barreiras. Conseguiram entrar para o mercado que antes era exclusivamente masculino. Claro que com menores salários e obedecendo ao sexo oposto, mas conseguiram. Hoje não é diferente. Cada dia que passa as mulheres ocupam cargos, antes delegados somente a homens, e muitas vezes com competência muito maior. Sabe-se que infelizmente os salários ainda são menores, mas o importante é a mulher estar conquistando seu espaço profissional. Muitas vezes vemos até os papéis invertidos: mulheres tendo como subalternos, os homens. A crença de que a mulher está somente por trás do homem, está acabando. Vemos cada vez mais mulheres independentes, e outras que até desistem de um casamento estável por se sentirem tolhidas e quererem seguir determinada carreira.

Ficam aqui, perguntas para reflexão: será que o fato de muitos homens descriminarem as mulheres profissionalmente, o fato delas receberem um salário menor apesar de exercerem a mesma função, não se dá ao medo que os homens têm de um dia, serem superados definitivamente por estas mulheres? Será que todos esses fatores citados anteriormente, não são um modo de os homens terem o “controle” financeiro de suas mulheres e assim fazer com que estas dependam deles? E o melhor: será que os homens não sentem medo do que essa independência feminina possa causar à sociedade machista? Que homem aceitaria tranqüilamente, que sua esposa ganhasse mais do que ele ao fim do mês?

Para ilustrar todas essas questões, faço uso de um fato contemporâneo: a separação de Martha e Eduardo Suplicy, logo após a eleição de Martha como prefeita. Seria esse um caso típico de machismo?

 

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