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Letras: com todas as LETRAS
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Estrangeirismos sempre estiveram presentes, com maior ou menor volume, na língua portuguesa, como elementos enriquecedores, emergentes do convívio Cultural dos povos. Palavras e expressões imigrantes decorrem dos rumos do progresso, em sua maioria, situam-se nos espaços da ciência, da tecnologia, da diplomacia, e se fazem indispensáveis. Tempo houve em que era freqüente a referência à carreira diplomática como a carrière, e parece que a carrière, apesar da invasão inglesa nos domínios da diplomacia, continua a ser uma referência de elegância.

Emergem também os estrangeirismos das contribuições episódicas da moda, e mais recentemente, da publicidade, seja como designação de objeto concreto, de técnica, de modos de pensar, de fazer e de sentir. Muitas delas passam a integrar o vernáculo, ou seja, a língua transmitida, a língua que se aprende em casa, desde os primeiros anos de vida. Língua falada, língua viva. Outros simplesmente passam: não vão além da efemeridade do modismo.

O maior ou menor volume da presença estrangeira na língua vernácula vincula-se, portanto, à maior ou menor influência que a Cultura de um país possa exercer sobre a Cultura de outro. No caso do português, é importante que se diga, os empréstimos, de qualquer ordem, nunca chegaram a ameaçar-lhe, de fato, a integridade sistêmica. Isso é que me parece importante: A língua como um sistema, ou seja, um conjunto organizado. Se é um conjunto organizado, se faz de princípios organizatórios. Nesse território, palavra estrangeira nenhuma entrou, já veremos por quê.

Mas momentos houve, por exemplo, na história do português lusitano e do português brasileiro, essas duas variantes nacionais da mesma língua comum, em que a utilização de termos e expressões francesas era traço de elegância e de finesse; afinal, a Cultura francesa se impunha como modelar nesses espaços. Freqüentava assiduamente reuniões, alguns textos literários e a maioria dos documentos diplomáticos - não é verdade, Afonso?

Quando o foot ball, o elitista futebol, o futebol começou elitista, quem conhece a história do futebol sabe quem eram os jogadores do Fluminense, não é à toa que ficamos pó-de-arroz. A galocha perdeu presença, por absoluta superação tecnológica. O futebol vestiu-se de verde-e-amarelo e passou a integrar a Cultura, a mitologia e o imaginário do brasileiro. E ainda comandou a naturalização das palavras designadoras de outros esportes da bola: voleibol, basquetebol ou cestobol, e até um curiosíssimo hand ball, um hibridismo que está aí se impondo.

Curiosamente, o goal-keeper virou goleiro. Nos bons tempos em que ainda praticava esse fabuloso esporte bretão, o guarda-valas de Portugal ainda era goal-keeper, que virou goleiro; o back virou zagueiro; o insider fez-se meia-esquerda e meia-direita, e mais recentemente, médio-volante; e os técnicos atuais estão mudando tudo isso.

Caprichos da integração entre a comunidade e a língua de que ela se vale: a contribuição individual, venha de onde vier, venha do especialista, venha do escritor, e o escritor é criador de línguas, sim. Eça de Queiroz não me deixa mentir, Machado não me deixa mentir, e os escritores, vários aqui presentes sabem disso, lançam no mercado verbal um termo novo, e de repente, ele se coletiviza. Mas, para ele se coletivizar, precisa atender ao que se chama tecnicamente a deriva do idioma, ou se preferirem, o anglicismo drift, ou seja a soma de tendências que fazem a língua ser como ela é, aquelas tendências que figuram e caracterizam a estrutura do idioma.

Qual é a parte da língua mais sensível ao estrangeirismo? É o léxico, é o vocabulário, porque ele é, inclusive, extremamente insensível às variações Culturais. Um exemplo recentíssimo citado por Rita Marquilhas, consta do Atlas da língua portuguesa na história do mundo, lançado no ano passado, e se refere à palavra "sutiã", no seu modelo sustentador tradicional, que mantém em Portugal a forma francesa, soutien. Mas os derivados, nascidos das oscilações da moda e dos avanços do mercado internacional, passaram a designar agora aquela peça por body ou top.

Nas atuais senhoras de meia-idade o carmim foi substituído pelo rouge, e o rouge, na juventude de algum tempo, converteu-se em blush. A língua acompanha a história da sociedade de que ela é o veículo de comunicação primeiro.

Agora, essa ciência e essa técnica são dimensionadoras de um sistema integrador de espaços intercomunicantes, caracterizados pela unicidade espacial e temporal: a unidade do espaço e do tempo que cada vez se comprime mais.

Esses espaços se chamam eletrônica, informática, cibernética. No comando, o computador. Na condução da trama integradora, com notável e avassalador destaque, a informação, sobretudo veiculada na língua inglesa, que assume destaque dominante por força da Cultura hegemônica do novo império do nosso tempo: a Cultura dos Estados Unidos da América do Norte.

No caso da língua, há uma pergunta (eu quase usava o lugar-comum), há uma pergunta que não quer calar. A marcante presença da língua inglesa, trazida e ampliada pelo processo de globalização e pela popularização gradativa dos recursos da informática, ameaça a integridade da língua portuguesa? Representará um novo glotocídio, tal como sucedeu com a língua indígena, a partir do achamento do Brasil?

A resposta a esta pergunta, em termos pragmáticos e imediatos, apóia-se, no momento, em conjecturas: não existe nenhuma pesquisa conclusiva, nenhum estudo que mostre os níveis de tais influências, pelo menos na realidade brasileira. E tenho dúvidas de que haja algo similar em terras de Portugal. Mas, para raciocinar, vamos admitir que a ameaça exista em níveis efetivamente preocupantes, diante de determinados indícios, indícios esses que são perceptíveis através da comunicação de massa, dos meios de comunicação de massa.

Os quentes, os livros, e os frios, ou de acordo com o grau de uso, o teatro, o cinema, o rádio, a televisão, os discos, os cassetes, os videocassetes, os computadores, e como gostava de dizer Antonio Houaiss, os futurimídia, os que surgirem por aí, e ainda em atividades e espaços setorizados, como a propaganda, o comércio, a gíria de grupos de jovens, certas modalidades de música. Estamos assistindo, em termos de arte popular ou erudita, a um momento crucial, que é mais ou menos o que acontece, historicamente, com todo final de século. É aquela era da mediocridade, que temos, a partir de determinados valores a que nos acostumamos. Mas será que é mediocridade? Será que temos o direito de avaliar assim, ou é apenas diferença? Fica a pergunta.

Por que essas coisas são preocupantes? São preocupantes porque os meios de comunicação na sociedade de consumo, há muito tempo, atuam em favor da universalização das línguas imperiais, línguas que tendem a dominar sozinhas, ou como segunda língua, via primeira língua, espaços extra-imperiais. Ou a se superporem em espaços bilíngües, trilíngües, multilíngües, provisoriamente poliglóticos. Provisoriamente sim, uma vez que, se a globalização seguir os rumos que alguns acreditam que vai seguir, é dada por muitos como certa a universalização do pensamento único e a presença unificante do inglês. Não me incluo entre eles, mas há muita gente que defende essa tese.

O atual processo de anglicização revela-se, de fato, avassalador. O grave é que, nestes momentos de globalização, a presença do modelo alienígena se torna impositiva, porque mobilizada pela força da informação, mais do que nunca controlada e direcionadora. Cada passo, cada telefonema de cada um de nós, hoje, são absolutamente controlados por um sistema, cuja pronúncia não sei muito bem dizer, mas creio que é échelon. É um sistema montado de satélites e computadores, capaz de localizar. Se o presidente da Academia fizer qualquer pronunciamento, que precise ser conhecido de imediato no império, ele será localizado e rigorosamente enquadrado numa tela de televisão, em sua casa, com tudo que ele disse rigorosamente detectado. Isto é muito sério.

Mas, esquecendo esse aspecto nebuloso, a língua acompanha a marcha da sociedade que a criou e que dela se vale. Situo-me entre os que acreditam que não é a presença dos termos estrangeiros entre si, no caso de língua inglesa, que põe em risco a configuração do país como Estado-Nação, não. Esta ameaça, ela se vincula à maior ou menor inserção do país soberano na qualificação modernizadora ou pós-modernizadora do progresso. A língua é apenas um aspecto e não é o mais importante.

Mas vamos nos concentrar no nosso país. Qual a realidade linguageira da nossa terra hoje, do Brasil? Somos oficialmente unilíngües, ninguém tem dúvida. O português é a nossa língua comum, usada pela maioria da população, consolidada como idioma oficial. É a nossa língua vernácula, ou seja, aquela que aprendemos desde o nascimento. E aqui já estou eu dizendo que não ia fazer, mas já estou sensacionalizando o óbvio até por oportuno, para acrescentar o seguinte. Na verdade, o português brasileiro convive com cerca de cem a cento e vinte línguas indígenas, em sua maioria ágrafas; para fins de comunicação, convive também com línguas trazidas pelos imigrantes, notadamente italiano, japonês, alemão e árabe, usados na comunicação familiar, com alguma imprensa e livros regularmente editados; quadro a que se acrescentam a forte influência do inglês, em geral, e a do espanhol, em determinadas regiões. Um país unilíngüe, numa realidade multilíngüe, com predomínio da língua portuguesa. Somos uma realidade singular e plural.

Em tal circunstância, há no Brasil/2000, falantes unilíngües: só falam o português - a maioria - ou falam a língua indígena; falantes bilíngües: falam o vernáculo próprio e a língua comum, o português. O número é pequeno. Falantes trilingües: falam o vernáculo, que aprenderam em casa, alemão etc., a língua portuguesa e uma terceira língua. São raros. Falantes culturalizados poliglóticos (com perdão da má palavra), que se valem do português e falam, e não raro escrevem, três e mais idiomas; não são relevantes, em termos de fala comunitária, obviamente.

Por outro lado, cabe considerar, em função desses usos que fazemos da língua portuguesa, língua oficial, alguns aspectos fundamentais. Primeiro, considerar duas faces da língua: a língua transmitida e a língua adquirida. A língua transmitida se faz das várias modalidades que o idioma põe ao nosso dispor, as chamadas variações sócio-culturais, regiográficas, regionais e expressivas, que fazem com que a pronúncia e determinado vocabulário do Nordeste, do Sul, do Centro, sejam diferenciados, mas diversidade essa que não prejudica a nossa unidade.

No uso comum, na fala transmitida, se pode dizer que o importante é adequar a fala à situação de fala. Há um momento para cada palavra, há uma palavra para cada momento. Há um momento para a barriga, se nomeio os catarinenses de barriga-verde; há um momento para ventre, se dialogo com a divindade, e "bendito é o fruto do vosso ventre"; há um momento para abdome, se vou a médico, porque, se for a médico e disser que estou com dor-de-barriga, fica meio esquisito; há um momento para bucho, quando uma boa peixeira não vai furar abdome, vai perfurar o bucho; há momento para bucho, há momento até para estômago e suas variantes, estâmago e estômbago; e há um momento para papo, "não quero outra vida, pescando no rio de Jereré, tem peixe bom, tem siri patola de dar com o pé, quando no terreiro faz noite de luar, e vem a saudade me atormentar, eu me vingo dela, tocando viola de abdome pro ar". Nem morto. Eu me vingo dela, tocando viola de papo pro ar...

Então, há um momento para cada palavra, uma palavra para cada momento na língua falada. A língua escrita, não. A língua escrita exige, como em vários momentos do convívio social, a língua escrita exige a variante sócio-cultural culta. É da nossa tradição. Essa variante culta, que também é exigida em determinados momentos do nosso convívio. Só consigo um bom emprego, se dominar o culto; só consigo ascender socialmente, se dominar o uso culto. Só consigo escolaridade mais alta, se passar no crivo do vestibular ou do exame que fizerem, até do provão, desde que domine, não a língua, que essa eu falo e trouxe do berço, mas tenho que dominar a variante culta, variante que a sociedade referendou como representativa para esses casos. Então, tem que considerar essas duas coisas.

A língua oralizada é a mais vulnerável à influência alienígena, na medida em que as situações de fala abrem-se para as múltiplas variantes sócio-culturais, que integram essa diversidade a que me referi. E por força ainda da sua permeabilidade aos modismos incentivados pelo comércio, pelo cinema, pela mídia, pela música, pela publicidade, pelo mercado, principalmente pela música popular. Além de degustar o fascínio da expressividade do novo e dos modelos de uma Cultura bem-sucedida e aparentemente garantidora de sucesso: como vencer na vida sem saber inglês? Os nomes das lojas, os shopping centers, os fast foods, as deliveries, povoam os outdoors da nossa cidade. Se mudar isso, perde o charme - para usar uma palavra cara a Marcos Almir Madeira.
Como resistir ao e-mail, o e-mail com essa pronúncia quanto mais sofisticada, mais interessante. - Vocês não querem meu e-mail? Já lhe dei o meu e-mail? Isso funciona. E como não preparar as mailing-lists para o casamento da filha? Contratei uma promoter para fazer a mailing-list, sem o quê o casamento não sai. E o efeito maravilhoso de dizer last but not least, ao fim de uma argumentação? É a glória. Encantos do fascínio do império, compensações da dependência cultural e por que não dizer, econômica? A gente inveja.

A língua escrita, não. A língua escrita é mais conservadora e tradicionalmente apoiada no registro culto, como disse, a não ser quando escrita para ser falada. É um outro detalhe curioso, a língua escrita para ser falada, porque a língua do rádio, a língua da televisão, a língua da mídia falada, a língua da TV e do rádio, é uma língua escrita antes para ser falada, e ela adota, sim, os estrangeirismos, mas em termos: a partir da sua efetiva incorporação ao léxico do idioma, até porque passível de autocontrole de quem escreve. O léxico implica uso diversificado por parte do usuário.

Vocês sabem qual o vocabulário médio do brasileiro menos Culturalizado, vale dizer, o brasileiro pouco escolarizado? Ele usa um vocabulário que gira em torno de três mil palavras, apenas três mil palavras, cujas combinações podem chegar a trinta mil termos. A língua, essa língua portuguesa nossa que, em 1943, em um dos primeiros dicionários que foi organizado, totalizava quarenta mil vocábulos, hoje coloca, à disposição do falante, mais de quatrocentas mil palavras, e as possíveis combinações levam a sete milhões de possibilidades ou mais.

Esse universo abriga, obviamente, um número razoável de empréstimos, validamente incorporados. A utilização desses milhares de termos depende do domínio que o usuário tem da escrita e dos instrumentos lingüísticos fundamentais, dicionários, vocabulários, glossários. Ali está o registro, ali está a fonte, onde quem escreve, quem tem cuidado com a língua, quem quer falar bem e escrever bem - com perdão do bem aí - vai lá buscar nessa fonte.

Esse domínio configura um vocabulário ativo e um vocabulário passivo. O primeiro é sedimentado; o segundo, de marcada fluidez. É nesse espaço aberto do idioma, o léxico vocabulário, que o anglicismo atua com mais presença, e se impôs, ao longo do tempo, como empréstimo válido por força das conquistas científicas e tecnológicas da modernização. Ninguém, nem o mais rigoroso dos puristas, pode impedir, nem o deputado - estão tentando fazer uma lei para multar quem use anglicismo -, nem a legislação oficial, nem a legislação cartorial vai impedir o uso comunitário de palavras, ainda que possa até ser durante um tempo, durante a moda. Mas, dificilmente, se impedirá a comunidade de usar air bag, apartheid, bacon - não vai dizer bacon and eggs, vai dizer bacon e vai escrever bacon, que ainda não foi autorizada.

Beagle (a minha cachorrinha beagle vai ter outro nome?), beatnik, best-seller (quem não gostaria de ser best-seller, hem, Ivan Junqueira? Se vendesse todos os seus livros de poemas já pensou?). Blazer (blazer, essa coisa elegante), byte, bypass, catch, cassette, videocassette, check-up (fazer um check-up), chip, crawl, delivery, dopping, e-mail, factoring, fashion, feed-back, flash (aliás, o flash andou freqüentando umas reuniões aqui na Academia, recentemente. Ouvi alguém dizer, numa reunião da Academia: um rápido flash. Quer dizer, a palavra se impôs). Franchising, freezer, hacker, happening, heavy metal, hobby (não o cor-de-rosa, por favor), home-page, hover craft, input, jet ski (saudosa memória), jogging, kit, layout, lead, leasing, lift, lobby, marketing, off-line, on-line, mouse (que os portugueses estão traduzindo como rato: - Já moveste o rato? Não é verdade? Carlos Nejar conhece bem, está indo para o Porto, sabe disso).
Open market, overdose, piercing (meu Deus do Céu!), overnight, teleprompter (não há âncora, hoje, que viva sem teleprompter), punk, funk, ranking, replay, rock, royalty, rush, scanner (ah, meu Pentium-3 não veio com scanner, é horrível), self-service, sex-appeal, shimmy (que enriquece todas as oficinas de carro), show (ah, mas tem espetáculo, mas vou assistir ao espetáculo da Maria Bethânia? Show é muito mais forte), skate, skinhead, slogan, songbook, talk show, trailer, underground, videoclip, videogame, western, yuppie, zoom. Western, num determinado momento, era tão poderoso, que um professor de Literatura, ao falar dos regionalistas - viu Lêdo Ivo?- escreveu assim: "A nossa literatura do Nordestern". Você vê até onde vai a influência inglesa.

E aí as aportuguesadas: bandeide, beisebol, bife, buldogue, caubói, copidesque, dólar, drible, estresse, futebol e por aí vai. Então, qual é a novidade preocupante? Já estou de olho aqui no relógio e quero ser inglês, porque a Academia, a Academia tem um zelo maravilhoso pelo cumprimento rigoroso dos horários. Só há duas realidades no Rio de Janeiro, que cumprem horário rigorosamente: as barcas da companhia que vai a Paquetá - porque não é só o João Ubaldo que tem ilha, eu também me permito freqüentar uma. (O João Ubaldo freqüenta a ilha de Itaparica, a minha é menorzinha, aqui do lado da baía). As barcas de Paquetá cumprem rigorosamente o horário e a Academia. As reuniões da Academia são rigorosamente dentro do horário, todos os Ciclos aqui começam, pontualmente, às 17h30m.

Mas a novidade maior que preocupa, realmente, é a presença avassaladora por causa dos novos motores do desenvolvimento científico e tecnológico, que são a informática, a cibernética etc., e o ciberespaço. É uma preocupação que não se limita ao mundo da lusofonia. A França tem, inclusive, tomado medidas protetoras a respeito da incolumidade da língua nacional, mas a França tem um território pequeno. Aqueles dados que citei antes, da expansão territorial da densidade demográfica, não a defendem, e mesmo assim, a Tour Eiffel que está lá como símbolo da França, com grande resistência de uns e apoio de outros, está sendo conhecida atualmente como um gadget de Paris. Com todo o esforço que se faz para evitar, não adianta, o inglês chega e se impõe, até se impõe porque vocês sabem quantos vocábulos estão disponíveis na área de informática para nosso uso? Sete mil e seiscentos vocábulos dicionarizados, aliás, mais de sete mil e seiscentos vocábulos entre bytes e chips, software, hardware etc.

Agora, será que a gente vai se preocupar tanto com isso? Não. A meu ver, a opinião é pessoal, a preocupação centrada no problema corre um risco: deslocar o núcleo da questão. A questão da ameaça à soberania não está na língua; a ameaça à soberania envolve dimensões de caráter ético, político, econômico e administrativo.

No comércio, na publicidade, na propaganda, na música, na ilusão do simulacro, as contribuições da ciência e da tecnologia terminam por se fazer indispensáveis - e ninguém vai se fechar a elas, seria fechar-se ao mundo e ao progresso - quando não encontram contrapartida vernácula, ou quando, por um forte poder de sedução, mobilizam os usuários do idioma. E de certa forma, se fazem enriquecedoras, como demonstra o excepcional - faço justiça a esse trabalho, que não é de um semanticista, que não é de um filólogo, mas que eu li e representa uma excelente contribuição nessa direção. Um trabalho que, hoje, se transformou quase que em leitura obrigatória, para quem queira falar de estrangeirismos em qualquer língua: o primoroso e alentado Palavras sem fronteiras, dezesseis mil exemplos de palavras e expressões legitimamente aproximadoras de Cultura, livro publicado pelo embaixador Sergio Corrêa da Costa, acadêmico desta Casa, e que, de certa forma, nos faz lembrar as lições de Machado e de Eça de Queiroz: o equilíbrio, a preservação do gênio da língua.

Por um lado, graças a Deus e à nossa História como povo, permanece ativo o instinto de nacionalidade, apontado ainda por Machado de Assis, fundador desta Casa. É um traço que a globalização ainda não conseguiu descaracterizar, e dificilmente o conseguirá, principalmente, enquanto cultivarmos, como cultivamos, nossas metodologias, e sobretudo, enquanto permanecer ativa a literatura brasileira. É a ela que se deve a corporificação e a manutenção do complexo mitológico brasileiro, isto é muito importante, e por isso, ela deve permanecer prestigiada. Insisto nessa frase, porque parece que há no ar um boato de desprestígio, ainda não se tem nenhum elemento para dizer isso com segurança, e com a garantia - aí é que mora o problema - do seu lugar na escola, na rede, na grade curricular. Um povo sem literatura é um povo vulnerável à descaracterização Cultural. Língua e literatura interagem no processo lingüístico comunitário. Desde os poemas e o teatro de Anchieta, desde o texto fundador da Carta de Caminha, para usar aqui a feliz expressão do professor Candido Mendes de Almeida.

Por outro lado, dificilmente a influência do inglês atingirá o sistema língua enquanto tal. Sequer a norma corre o risco de ser atingida. As dimensões fono-morfo-sintático-semânticas, que singularizam, por sistêmicas, a língua portuguesa, não se abrem a inserções alienígenas. São episódicas. Por exemplo, um caso episódico famoso é o caso de gol. Qual o plural de gol? O plural de gol com acréscimo do s seria a norma, mas, em português, não se acrescenta s à consoante. Gols fere o sistema, contraria os princípios de pluralização. Gois e goles foram propostos, mas não perduraram. Dois gois, dois goles. Há uma proposta substitutiva: tentos. Ganhou por dois tentos. Também não vigorou. Sabe qual é a solução? A língua escrita prefere registrar o resultado do jogo: Flamengo 2 x 0, acabou.

O que pode ocorrer num futuro não muito próximo, por força das exigências do efetivo e anunciado convívio universal, não podemos fugir dele, é o retorno similar a uma situação que o Brasil viveu nos seus primórdios: a convivência do português vernáculo, português usado em casa, na comunicação oficial, e do inglês como "língua geral", usada no comércio, na linguagem dos computadores, na informática em geral. Língua de mercado mundial, tal como aconteceu com o tupi, gramaticalizado pelos jesuítas. Só que essa nova língua já chega pronta e como paralela à língua de Cultura. Em termos de bilíngüismo, sem essa configuração espacial, esse duplo convívio parece brincadeira, mas esse duplo convívio já está acontecendo, há algum tempo, na Holanda.

Por outro lado ainda, os brasileiros não nos guetificamos, não corremos o risco que corre o inglês nos domínios do próprio Império, com a língua oficial ameaçada pelo espanhol e pelo italiano. Lá em Nova York, é muito comum. E há várias construções, há várias expressões faladas em Nova York, que misturam o inglês com o espanhol, de uma maneira bastante preocupante. Na verdade, língua se vincula a processo cultural, Cultura implica comunidade.

Eu assino embaixo a precisão e o realismo desse trecho, volto a ele para dar à minha fala uma certa segurança e erudição, cito mais uma vez Sergio Paulo Rouanet, agora ipsis litteris, já que estamos falando em empréstimos: "No ciberespaço e no mundo globalizado, a língua universal é o inglês. O Capitalismo transnacional está realizando, à sua moda, o sonho universal de desfazer Babel. Mas isso não pode significar o fim do pluralismo lingüístico. Sem nenhum chauvinismo, é um fato objetivo que, só na língua materna, podemos exprimir plenamente o nosso pensamento e as nossas emoções. Isso é válido mesmo para pessoas bilíngües ou trilíngües, que têm, não uma, mas duas ou mais línguas maternas. Sua competência se limita a essas línguas, não se estendendo no mesmo grau às línguas aprendidas posteriormente".

Cumpre que continuemos a ser (estou terminando), nós os brasileiros, oswaldianamente antropofágicos. Há que deglutir o termo estrangeiro, quando necessário. Vestir de verde-amarelo as palavras e expressões que não encontram contrapartida ou que sejam exigência do progresso científico e tecnológico, ou manter a forma original daqueles que, indispensáveis, sejam rigorosamente intraduzíveis. Alguns termos e expressões certamente irão impor-se, independentemente de qualquer controle, ao capricho do idioma, e até vão conviver com suas contrapartidas vernáculas ou com as formas naturalizadas. Isso já acontece, por exemplo, com shampoo, que se escreve em inglês, e se escreve também com x, xampu, e as duas ainda convivem. Se existe similar para o termo ou construção estrangeira, ou se disputam sinônimos, uma boa prática é dar preferência ao produto brasileiro. Caso contrário, prefira-se a forma aportuguesada, se já estiver coletivizada ou consagrada, ou use-se a palavra no idioma original, entre aspas, ou em grifo, e se na escrita à mão, sublinhada. Essa é a prática da tradição.

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