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O CRIME DO PADRE AMARO
Eça de Queirós

 

1. O CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

A partir da segunda metade do século XIX, começavam a ter lugar na literatura aspectos de uma nova realidade resultante de mudanças significativas implementadas no ambiente político-econômico e sócio-cultural europeu.

A aristocracia feudal e a Igreja perdiam o controle político da sociedade que passava às mãos da classe média. O racionalismo econômico gerava uma industrialização mais intensa e propiciava a vitória do capitalismo financeiro.

Mais tarde, com a solidificação da sociedade burguesa industrial materialista, a classe média e o operariado, cujos objetivos eram os mesmos, separavam-se, e as idéias liberais propagavam-se, dando origem a uma série de protestos contra a opressão dos trabalhadores em toda a Europa.

Com efeito, o desenvolvimento acelerado e o crescimento de novos complexos industriais atraíam uma massa de operários que, constituindo uma classe privada dos benefícios trazidos com o progresso, fixava-se nas cidades sob condições subumanas de trabalho, denunciadas pelos escritores Charles Dickens, em Tempos Difíceis e Émile Zola, em o Germinal.

O mundo físico passava a ser visto e avaliado sob o prisma da ciência e da experimentação e, conseqüentemente, os valores místicos e religiosos enaltecidos pelo Romantismo eram veementemente atacados.

Na França, a revolução de 1848, o estabelecimento da Segunda República e o sufrágio universal correspondiam a uma transformação cultural de grandes proporções. A intelectualidade respirava as novas idéias disseminadas por August Comte (1798/1857) no seu Curso de Filosofia Positivista (1830/1842); por Charles Darwin (1809/1882) em A Origem das Espécies (1859). E acolhiam-se as afirmações que Hippolite Taine (1828/1893) fazia em História da Literatura Inglesa (1864) e a Filosofia da Arte (1865/1869), segundo as quais a criação artística era resultado da influência da raça, do meio ambiente e do momento histórico.

O desenvolvimento científico trazia consigo um grande número de invenções e descobertas, ampliando o conhecimento do homens nas áreas das ciências naturais e provocando alterações profundas nos hábitos e no comportamento dos cidadãos.

Por influência de métodos científicos e graças à aversão ao idealismo do período anterior, as concepções filosóficas revestiam-se de um caráter materialista, abrindo espaço para o Positivismo.

Na arte, o Realismo manifestava-se na representação anti-sentimentalista e objetiva dos dados reais e adotava o racionalismo, promovendo uma revisão crítica dos valores religiosos e sociais. Na pintura, o povo tornava-se o tema mais freqüente, demonstrando uma identidade entre a verdade artística e a social. Por conseguinte, a obra de arte transformava-se num meio de protestar contra a ordem social vigente e os desmandos das classes dominantes. No plano estético, os personagens rudes, representantes das classes menos privilegiadas, ascendiam à categoria de heróis.

Em Portugal, somente a partir de 1860, os estudantes da Universidade de Coimbra, influenciados pelas idéias de Proudhon, Taine, Darwin, Spencer, Hegel, Renan e Quinet, vinham a rechaçar os princípios ideológicos e estéticos do movimento romântico, que consideravam produto de três instituições superadas: a Monarquia, a Igreja e a Burguesia. Começava, então, a implantação do moderno pensamento filosófico e científico.

Inspirado por esse espírito reformista, em 1861, Antero de Quental congregava estudantes das várias faculdades de Coimbra numa associação que denominou Sociedade do Rio e, em 1865, publicava as Odes Modernas. Nesse mesmo ano, Pinheiro Chagas editava o Poema da Mocidade, ao qual Antônio Feliciano de Castilho acrescentava um posfácio em que defendia os princípios românticos e criticava a literatura realista. Em contrapartida, ainda nesse ano, em Bom-Senso e Bom Gosto, Antero de Quental rebatia as considerações de Castilho, criando a polêmica Questão Coimbrã (1865’/1866), e inaugurava, assim, o Realismo em Portugal.

Vale ressaltar que, embora a Questão Coimbrã tenha dado início a uma revolução cultural que objetivava extirpar da arte portuguesa os traços de um romantismo sentimental, restrito aos problemas nacionais, ela não representou simplesmente um embate entre sectários do Romantismo e do Realismo. Ela era antes um conflito entre duas concepções que discordavam quanto à condição social da literatura: uma, praticada pelos escritores ultra-românticos, era alienada e ornamental; outra considerava os problemas sociais também responsabilidade do escritor, fazendo da literatura um instrumento de reflexão crítica contra o convencionalismo e o artificio.

Nessa briga entre românticos e realistas, os jovens levaram a melhor, embora Castilho tenha exercido, ainda por muitos anos, influência na poesia do século XIX.

Outros fatos, porém, fizeram com que as idéias realistas se consolidassem, Em 1868, Antero de Quental e Eça de Queirós formavam, com outros anti-românticos, o grupo Cenáculo.

Em 1871, o grupo organizava, no Cassino Lisboense, conferências públicas em que se discutiam questões ideológicas que também eram do interesse da Europa e da América do Norte.

A partir desse ano ocorreu uma série de palestras que consistiam em introduzir Portugal na cultura européia da época. Contudo, algumas conferências não chegaram a ser proferidas, pois uma portaria do ministro do reino as suspendia.

 

Apesar dos protestos contra essa decisão autoritária, as conferências não foram reabertas. Todavia, algumas de sua idéias básicas já haviam sido difundidas: os princípios socialistas divulgados por Antero de Quental; o ataque à sociedade portuguesa; a crítica ao clero e à educação romântica. Além disso, graças à intervenção de Eça de Queirós, o Realismo e o Naturalismo já haviam sido implantados em Portugal.

O ideário realista consolidou-se em 1875, com a publicação de O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós.

Em 1890, porém, a estética simbolista ganhava espaço, suplantando um dos movimentos artísticos e literários mais expressivos de Portugal, o Realismo.

 

2. A ESCOLA LITERARIA Realismo (1865/1890)

Reflexo de transformações político-econômicas e sócio-culturais da segunda metade do século XIX, o movimento realista manifesta-se nas artes, originalmente, na França.

Na pintura, Gustave Coubert propõe, em O Enterro de Ornans (1851) e As Banhistas (1853), a criação de uma arte viva que fosse tradução dos costumes de sua época e negasse o ideal romântico.

Essa preocupação com a representação fiel da realidade atribuía à literatura um caráter documental e um rigor formal excessivo. Assim, no romance de ficção, a partir de 1848, predominava o retrato da vida burguesa, confirmando a missão social do escritor e repudiando as funções meramente estéticas da arte. Nesse sentido, merecem destaque Cenas da Vida Boêmia (1848), de Henry Murger; os jornais La Gazette (1856) e O Realismo (1857), de Champfleury, e a revista O Realismo (1857), de Duranty.

Em 1857, na França, eram publicadas As Flores do Mal, de Baudelaire, e Madame Bovary, de Auguste Flaubert. Esta última vinha inaugurar efetivamente o Realismo na Europa.
 

Características do Realismo

Como se viu, as idéias realistas empreenderam no plano estético modificações que deixaram marcas sobretudo na literatura.

Configurando-se como uma reação ao Romantismo, o Realismo defendia um programa estético que opunha a Razão e a Inteligência ao Sentimento. Balizado pelo Positivismo, negava, através da impessoalidade, o subjetivismo individualista e a imaginação romântica e sobrepunha às preocupações teológicas e metafísicas, o dado positivo cientificamente comprovado, elegendo, como prioridade, a observância da vida comum e a representação mais objetiva e fiel da vida humana.

A primazia dada à ideologia republicana dava vazão a atitudes antimonárquicas, antiburguesas e anticlericais.

No campo das artes, preconizava, conforme os preceitos de Taine, a sujeição da expressão artística ao meio, à herança e ao momento. O homem era considerado mais urna engrenagem do mecanismo que regia a natureza. Nesse contexto, a concepção romântica da arte pela arte era rejeitada em favor de uma arte engajada, que deveria ser uma arma de reforma e ação social, de modo a construir uma sociedade perfeita, calcada nos moldes científicos.

O romance tomava-se obra de tese, cujo intuito era demonstrar os problemas sociais observáveis na sociedade através de proposições, como fazia o empirismo científico. Ao mesmo tempo em que, nessas obras, se analisavam as mazelas da vida pública e os contrastes da vida privada, de acordo com causas naturais ou culturais, atacavam-se os mecanismos que moviam a estrutura social corrompida.

A predileção por retratar casos patológicos justificava-se na ansiedade em mostrar provas dos males que danificavam a sociedade e na afirmação da inexistência de órgãos saudáveis dentro do corpo social. Nesse sentido, o estudo dos costumes burgueses visava a mostrar a decadência das instituições que sustentavam a sociedade em que se originou a visão idealizada do mundo.

Conseqüentemente, erradicava o enredo de cunho sentimental para dedicar-se ao estudo do comportamento e do modo de ser dos personagens por meio de Critérios biológicos e sociológicos, que regulavam a vida humana. O objetivismo na descrição dos ambientes, a experimentação, a observação, o cultivo do fato, o antidogmatismo e a organização de idéias, segundo os princípios científicos, substituíam as divagações da imaginação, o individualismo excessivo, o desejo mórbido pelo tétrico e pelo ceticismo.

Além disso, os conceitos artísticos descartavam a observação psicológica introspectiva e subjetiva, o mundo interior e individual, a realidade fantasiada e sentimental, para privilegiar as verdades da realidade objetiva, o mundo concreto, a vida impessoal e universal. Em virtude disso, o aspecto heróico e fantástico da narrativa romântica dava lugar à análise das experiências cotidianas. O realismo do homem e da vida passava a ser o tema do conto, do romance e do teatro, gêneros eleitos pela arte realista.
 

Características da prosa realista

De forma generalizante, podem-se resumir assim alguns aspectos temáticos e formais que compunham a prosa realista:
 

O romance deixa de lado sua função de entretenimento e prazer para tomar-se uma arma de combate e crítica às instituições que constituíam a base da sociedade burguesa: o casamento e a Igreja.
Apoiada nos métodos empíricos das ciências naturais, a prosa realista prefere a narração objetiva e impessoal à sentimentalista romântica.
A exatidão do romance de cunho científico requeria bom senso na descrição da realidade e no emprego da língua. Desse modo, preocupada em não cair nos exageros emocionais, a prosa realista opta pelo padrão culto da linguagem e busca criar impressão da realidade através do acúmulo de detalhes. Além disso, visando á perfeição formal, prima por uma linguagem clara, correta e lógica na ordenação dos fatos, que dá preferência aos períodos curtos.
Uma vez que o movimento objetivava o desmascaramento dos males sociais, era comum as obras organizarem-se sobre teses sociais, buscando explicações para os problemas observáveis na sociedade. O artista arquitetava suas histórias como um cientista, e o raciocínio tomava-se a matéria prima dos romances.
O narrador, para atingir a objetividade pregada pelos ideais científicos, assume diante da realidade uma posição impessoal, incorporando ao seu relato aspectos que possam até parecer asquerosos e descartando, no decorrer da narrativa, acasos e milagres, visto que o objetivo do romance era estudar os mecanismos sócio-psicológicos.
O lado prosaico da vida passa a ser tema freqüente da literatura. Porque a meta era retratar a sociedade contemporânea, os personagens são sintetizadores das pessoas reais, podendo ser identificados como tais. Sua estruturação é feita segundo uma concepção biológica do homem. Daí, serem destacados a dimensão animal, as satisfações das necessidades instintivas e materiais e os condicionamentos hereditários, que determinam o seu comportamento. Sua descrição é minuciosa, de modo a representar a realidade da forma mais exata possível e fornecer os elementos da observação para que se possa compreender o que ocorrerá no desenvolvimento da narrativa.
Quanto ao espaço, o meio físico e social em que vive o personagem é também um dos elementos condicionadores de sua conduta, podendo determinar mudanças em seu comportamento. Por isso, deve ser retratado fiel e detalhadamente através de impressões sensoriais. Geralmente, nota-se uma preferência por espaços desequilibrados ou miseráveis.
A narrativa é geralmente tomada por um pessimismo racional e irônico quanto à vida, à correção dos defeitos sociais e à possibilidade de o ser humano se recuperar.

 

Naturalismo

Embora na literatura portuguesa, assim como na francesa, a distinção entre os romances realista e naturalista esteja bem definida, há entre eles alguns pontos de contato e divergências que não podem deixar de ser apreciados.

Inaugurado na França em 1867, com a publicação de Thérèse Raquin, de Émile Zola, e, em Portugal, em 1891, com O Barão de Lavos, de Abel Botelho, o Naturalismo vem dar continuidade, no âmbito estético-literário, às concepções introduzidas pelo Realismo cientificista. Entretanto, ainda que apoiado na mesma ideologia sobre a qual o Realismo estabeleceu suas bases, o movimento salientava o caráter materialista da existência humana. Influenciados pelas ciências experimentais da época, os naturalistas viam o homem como um produto biológico, cujo comportamento era conseqüência da influência do ambiente social e da hereditariedade psicofisiológica. Daí inferir-se que, em dadas circunstâncias, os homens esboçariam as mesmas reações.

Entretanto, cabe salientar que, se, por um lado, os naturalistas — como ficou evidente — dispõem dos mesmos preceitos científicos que os realistas, por outro, diferenciam-se destes no modo como utilizam os dados do conhecimento na produção da obra de arte.

O Naturalismo transporta a ciência para o plano artístico, tornando-o um meio de demonstrar teses científicas, especialmente de psicopatologia. Tal atitude implica uma posição combativa, de análise dos problemas, que a decadência social evidenciava, transformando a obra numa verdadeira tese com fins científicos.

O Realismo, por sua vez, não mostra preocupação com a patologia, dedicando-se somente a descrever, com certa isenção, a realidade, sem trazer a ciência dissertativa para o plano da obra.
 

3. O AUTOR: VIDA E OBRA

Considerado um dos maiores romancistas portugueses do século XIX, Joaquim Maria Eça de Queirós nasceu em 1845, na Póvoa de Varzim. Na juventude, estudou Direito na Universidade de Coimbra, tomando-se amigo de Antero de Quental e iniciando-se na carreira literária.

Sua primeira publicação foram Prosas Bárbaras, em 1905. Da Questão Coimbrã participou como espectador.

Já formado, transferiu-se para Lisboa onde, em 1867, dirigiu o jornal Distrito de Evora. No ano seguinte, ligou-se ao grupo do Cenáculo.

Em 1869, viajou ao Egito para fazer a reportagem sobre a inauguração do canal de Suez. Dois anos depois, participou das Conferências Lisboenses e exerceu a função de administrador do Conselho em Leiria, onde ficou por seis meses.

Foi nomeado cônsul em Havana em 1873, e, no ano seguinte, foi para Bristol. Em 1875, publicou O Crime do Padre Amaro. Em 1878, mudou-se para França, onde se casou e se dedicou à criação literária. Morreu em Neuilly, em 1900.
 

Obras:

A obra de Eça de Queirós divide-se em três fases:
 

Primeira fase: compreende artigos e crônicas publicados entre 1866 e 1867 na Gazeta de Portugal e reunidos postumamente no volume Prosas Bárbaras; o romance policial O Mistério da Estrada de Sintra (1871) e suas colaborações ao jornal satírico As Farpas.


Constitui a fase menos importante de sua carreira, em que manifesta influência de Baudelaire, Gérard de Nerval, Heine e Hoffman.
 

Segunda fase: inicia-se com a publicação de O Crime do Padre Amaro em 1875, O Primo Basílo em 1878 e encerra-se, em 1888, com a publicação de Os Maias.

Comprometido com as idéias da geração de 70, o autor adere à causa republicana, e passa a dedicar-se a obras de reforma social que atacavam a Igreja, a Monarquia e a Burguesia.

Nos romances, pintou com uma narrativa vigorosa, permeada de ironia e graça, um painel variado da sociedade portuguesa da época.

Em O Primo Basílio apresenta a expressão impiedosa da decadência da sociedade burguesa e de uma de suas principais instituições: o casamento. Nesse romance, o autor perscruta um lar burguês, supostamente estruturado e sólido, para flagrar-lhe a decomposição moral trazida pela frivolidade e a disposição feminina para o adultério.

Trilhando ainda esse mesmo caminho, manifesta sua visão corrosiva através de uma análise irreverente da hipocrisia religiosa em A Relíquia. E, em Os Maias, além de fazer um longo exame da fidalguia portuguesa em decomposição, deixa, segundo João Gaspar Simões,’ transparecer “os mistérios do destino e as inquietações do sentimento, as apreensões da consciência e os desequilíbrios da sensualidade”.
 

Terceira fase: obras formuladas entre 1888 e 1900, ano da morte do escritor. Mostra em A Ilustre Casa de Ramires, A Correspondência de Fradique Mendes e A Cidade e as Serras um momento de otimismo e esperança baseado no culto dos valores da Alma e do Espírito, a partir do qual a crença supera o ceticismo cínico, a ironia corrosiva e a sátira. A descrença no progresso e nos ideais revolucionários deixa-se transparecer na saudade da vida do campo e na valorização das virtudes nacionais. O esteticismo cientificista da fase anterior abre caminho para uma reflexão sobre o significado da existência humana na terra.


Num quadro geral, a produção literária do autor desenvolveu-se da seguinte maneira:

Romance:

Mistério da Estrada de Sintra (1871); O Crime do Padre Amaro (1875); O Primo Basílio (1878); O Mandarim (1879); A Relíquia (1887); Os Maias (1888); A Ilustre Casa de Ramires (1900); A Correspondência de Fradique Mendes (1900); A Cidade e as Serras (1901); A Capital (1925); Conde d’Abranhos (1925); Alves e Cia. (1925).

Contos:

Contos (1902)

Jornalismo, literatura de viagem, hagiografia:

Uma Campanha Alegre (1890/1891); Cartas de Inglaterra (1903); Prosas Bárbaras (1905); Ecos de Paris (1905); Cartas Familiares e Bilhetes de Paris (1907); Notas Contemporâneas (1909); Egito (1926); Últimas Páginas (1912).
 
 

4. ANALISE DA OBRA

Enredo

Amaro Vieira era filho de uma criada da marquesa de Alegros. Com a morte da mãe, foi adotado pela marquesa, que se encarregou de sua educação. Assim que a mãe adotiva falecera, foi encaminhado para a vida religiosa, a que se dedicou mais por comodismo do que por convicção.

Inicia sua carreira em Feirão, paróquia pobre de pastores na serra da Beira Alta, mas, em seguida, é transferido para a província portuguesa de Leiria graças à interferência do conde de Ribamar, esposo de uma de suas irmãs “afetivas”. Lá, hospeda-se na casa da Senhora Joaneira e acaba por se envolver sexualmente com sua filha, Amélia, jovem religiosa cuja frivolidade a leva a aceitar passivamente os aconselhamentos dos padres e das beatas.

No decorrer da narrativa, Amaro torna-se um homem inescrupuloso que coloca seus interesses particulares acima de sua opção religiosa e se serve do sacerdócio para manipular as pessoas e atingir seus objetivos.

Assim, quando Amélia fica grávida, temendo um escândalo que pudesse abalar sua condição de pároco, ele a esconde. Como a mãe morre no parto, entrega a criança a uma “tecedeira de anjos”. Morta também a criança, Amaro transfere-se para a paróquia de Santo Tirso onde continua a exercer sua função de pároco.
 

Foco narrativo, tempo e espaço

O romance é relatado em terceira pessoa por um narrador omnisciente, que pesquisa o passado dos personagens a fim de configurá-los moral, física e ideologicamente. Assim, segundo Carlos Reis,2 a omnisciência garante ao narrador todos os meios de que necessita para dissecar o personagem. Isso, no entanto, não exclui a possibilidade de em alguns momentos esses personagens se auto-analisarem, mesmo limitados por suas perspectivas.

Adepto da visão determinista da existência humana que marcou o realismo, o próprio narrador antecipa-se na apresentação de uma série de aspectos que levam a supor os defeitos caracterizadores da moral do herói. Desse modo, traça um retrato de Amaro, que se estrutura a partir de sua origem, seu aspecto físico, sua psicologia, seu temperamento e, principalmente, sua indolência que lhe permite aceitar passivamente um destino que não escolhera.

Contudo, ainda como salienta Reis, as influências derivadas da hereditariedade são menos privilegiadas pelo narrador do que aquelas derivadas do ambiente ou da educação inculcada ao personagem. Dai, ser notória a referência superficial a alguns detalhes da fisionomia da mãe de Amaro.3
 

Dentro do espírito realista/naturalista, o narrador privilegia elementos da narrativa que lhe permitem demonstrar teses sociais. Conseqüentemente, dá preferência à observação e à descrição dos ambientes que condicionam os personagens e determinam o andamento do enredo e destaca, dos personagens, aqueles aspectos que se moldam aos preceitos da nova escola literária. Assim, interessa-se pela descrição minuciosa dos meios sociais, a fim de reconstituir os ambientes que freqüentavam os personagens, e que, por isso, explicavam sua natureza.

Dessa forma, é justificável que o narrador se dedique ao estudo detalhado de personagens secundárias que compunham os círculos de amizade dos protagonistas e que transitavam pela intriga, constituindo o clima sócio-cultural e moral da narrativa. Nesse âmbito, vale destacar os colegas de Amaro - de dentro e de fora do convento - cujos vícios são denunciados pelo narrador, que atribui a degradação moral do personagem ao convívio com esse grupo de pessoas. E não se podem negligenciar as beatas, amigas de S. Joaneira, de quem o narrador enfatizava a beatice, o provincianismo, a mesquinhez e o preconceito, que se projetavam sobre Amélia.

Entretanto, vale notar que, se o narrador atribui aos grupos humanos que compõem a obra um papel importante, isto se deve ao fato de estes integrarem ativamente os ambientes que rodeiam Amélia e Amaro. Isso acaba por demonstrar a preponderância da ação do meio social, pois é ele o maior responsável pela deterioração moral dos personagens. Assim, o narrador descreve o provincianismo do ambiente humano de Leiria, cidade onde se desenvolve a narrativa, como complementar daquele exercido pelos seus habitantes. Para tanto, detém-se não só na descrição de aspectos da cidade que demonstram a monotonia de um povo desprovido de interesses, mas também na caracterização de ambientes físicos cujos traços derivam-se das personagens que deles são responsáveis.
Personagens

 Personagens

Padre Amaro Vieira: protagonista, filho de uma criada da marquesa de Alegros. Com a morte da mãe, foi adotado pela marquesa, que se encarregou de sua educação e decidiu que ele se tornaria padre e assim, aos quinze anos, foi mandado ao seminário. Sua debilidade física reflete-se psicologicamente na involuntariedade, que o levaria a aceitar o sacerdócio passivamente. Por influência do conde de Ribamar, obtém a paróquia de Leiria, onde se hospeda na casa da Sra. Joaneira, cuja filha, Amélia, toma-se sua amante. O ambiente da casa da marquesa, onde fora criado, e o seminário moldaram a indolência de seu caráter. Assim, já sacerdote em Leiria, adapta-se ao ambiente de servilismo beato da casa onde está hospedado e ao cinismo do clero, tomando-se idêntico aos seus colegas.

Amélia Caminha: co-protagonista do romance. Jovem beata, de 23 anos, cujo caráter é produto de uma formação num meio provinciano, que se concentra em torno do poder eclesiástico. Os sacerdotes amorais e as beatas mesquinhas e hipócritas da cidade são presença constante em sua casa. ambiente em que se desenvolve a superficialidade dos rituais e a deformação dos conceitos religiosos cristãos. Sensual e romântica, desfaz o noivado com o escrevente João Eduardo, para envolver-se afetivamente com Amaro. Morre no parto do filho.

 

Personagens Secundárias:

Sra. Joaneira: Sra. Augusta Caminha, viúva, mãe de Amélia e amante do cônego Dias. Morava na Rua da Misericórdia e recebia hóspedes. Devota simplória e passiva, atraída pelo ritual católico e pelo proteção financeira do cônego. Era chamada Joaneira por ser natural de S. João da Foz.

Maria Assunção: viúva e rica, sofria de um catarro crônico. Freqüentava a casa da Sra. Joaneira por quem tinha uma antiga amizade. Era afeita aos hábitos religiosos e alegrava-se quando falavam de devoções ou de milagres.

Joaquina Cansoso: “pessoa seca, com uma testa enorme e larga, dois olhinhos vivos, o nariz arrebitado, a boca muito espremida”. Falava mal dos homens e entregava-se totalmente à Igreja. Era irmã de Ana.

Ana Gansoso: era surda e nunca falava. Trajava sempre um vestido preto de riscas amarelas, um rolo de arminho ao pescoço. Dizia-se que nutria uma paixão pelo recebedor do correio. Todos admiravam sua habilidade em recortar papéis para caixas de doce.

Libaninho: beato com trejeitos homossexuais.

Cônego Dias: pároco de Leiria e mestre de moral de Amaro nos seus primeiros anos de seminário. Era muito conhecido na cidade. Vivia com uma irmã velha, Sra. Josefa Dias, e uma criada. Era conhecido por suas propriedades arrendadas ao pé de Leiria e por sua “amizade” com a Sra. Joaneira.

Josefa Dias: irmã do Cônego Dias. Tinha a alcunha de “Castanha Pitada”. Era uma criaturinha mirrada de linhas aduncas e voz sibilante. Vivia irritada e era temida. Era chamada pelo Dr. Godinho de “a estação central” das intrigas de Leiria.

Artur Couceiro: era o melhor tocador de modinhas da cidade. Freqüentava a casa de Sra. Joaneira e sua música era apreciada por todos.

Padre Natário: conhecido pela alcunha de “O Furão”. Era esperto e questionador e tinha a fama de ser um grande latinista. Vivia com duas sobrinhas órfãs. Foi ele quem descobriu a autoria do comunicado — texto que denunciava os desmandos dos clérigos de Leiria — publicado na A Voz do Distrito e tomou algumas providências para destruir os pianos financeiros e amorosos de João Eduardo.

Padre Brito: o padre mais estúpido e mais forte da diocese.

Abade Ferrão: sacerdote, que tenta salvar Amélia da influência de Amaro.

Agostinho Pinheiro: parente de João Eduardo e redator da A Voz do Distrito. Era conhecido sob a alcunha de “O Raquítico”. Era extremamente sujo e sua cara revelava vícios torpes. Era de Lisboa e estava acostumado a todo tipo de malandragem.

Gouveia Ledesma: secretário geral e antigo jornalista. Estava dirigindo a cidade na ausência do governador civil. Era bacharel, mas estava pobre. Detestava Leiria. Preferiu omitir-se na questão do comunicado de João Eduardo publicado no jornal A Voz do Distrito.

João Eduardo: escrevente de cartório e noivo de Amélia. Nutria desprezo pelo mundo eclesiástico. Enciumado com as atenções da moça ao padre Amaro, denuncia, em um Comunicado escrito ao jornal A Voz do Distrito, as imoralidades e os desmandos dos clérigos de Leiria e insinua o envolvimento amoroso entre Amaro e Amélia.
 

Tipo de discurso predominante

A omnisciência do narrador privilegia a utilização do estilo indireto, mas é inegável a sua “convivência” com os dois outros estilos discursivos.

A busca da vivacidade emotiva e da espontaneidade da linguagem oral abre espaço para o diálogo entre os personagens, fazendo-os atuar livremente e possibilitando ao leitor resgatar, pelo conteúdo e pela forma de seu enunciado, traços de sua carga psíquica.

Entretanto, quanto ao discurso, o que mais chama a atenção é o emprego do estilo indireto livre, processo de técnica narrativa que ganha importância fundamental no Realismo, a partir de Flaubert.

Na obra queirosiana, o discurso indireto livre está presente tanto no diálogo aberto quanto no monólogo mental, para fazer ouvir os pensamentos dos personagens. Contudo, a despeito dessa função primeira, Eça parecia enxergar no seu uso algumas vantagens estruturais que não devem ser negligenciadas.

O discurso indireto livre prescinde de alguns dispositivos gramaticais — o verbo dicendi e a conjunção (“que” ou “se”) que introduz a oração subordinada — que privam a expressão literária dos matizes da língua falada. Desse modo, sua utilização alivia a monotonia do diálogo paralelístico e ameniza os monólogos mentais:

E não abrandou o passo até a cidade, levado de um impulso de indignação que, sob aquela doce paz de um meio de Outono, lhe sugeria planos de vinganças ferozes. Chegou a casa esfalfado, ainda com o ramo na mão. Mas ai na solidão do quarto, veio-lhe pouco a pouco o sentimento da sua impotência. Que lhe podia fazer por fim? Ir pela cidade dizer que ela estava grávida? Seria denunciar-se a si. Espalhar que estava amigada com o abade Ferrão? Era absurdo: um velho de quase setenta anos, de uma fealdade de criatura, com todo um passado de virtude santa!... Mas perdê-la, não tornar a ter nos braços aquele corpo de neve, não ouvir mais aquelas ternuras balbuciadas que lhe arrebatavam a alma para alguma coisa de melhor que o Céu...lsso não!
(p. 425)
 

Conforme Ernesto Guerra Da Cal,5 esse tipo de discurso permite ao escritor português tomar sua narração impessoal, fazendo com que reste ao leitor a dúvida de não saber se quem está falando:

O Padre Amaro esclareceu-a, com bondade. O inimigo tinha muitas maneiras, mas a habituar era esta: fazia descarrilar um trem de modo que morressem passageiros, e como essas almas não estavam preparadas para a extrema-unção, o demônio ali mesmo, zás trás, apoderava-se delas!

Com a quebra da continuidade lógica e gramatical, a construção adquire o movimento da fala: o imperfeito substitui os demais tempos requeridos pelo sistema de correlação verbal; os pronomes são transpostos e as interjeições são inseridas ao longo do discurso.

Outro procedimento comum nessa obra é a transposição do estilo indireto livre ao direto, em que a passagem do imperfeito para o presente sugere ao leitor a impressão de que não é mais o autor quem imita a voz do personagem, mas o próprio personagem que fala: Ora, ele necessitava ter com a pequena muitas e muitas conferências: para experimentar, para conhecer as suas disposições, ver bem se é para a Solidão que ela tem jeito, ou para a Penitência, ou para o serviço dos enfermos, o para a Adoração Perpétua, ou para o ensino... Enfim, estudá-la por dentro e por fora...

 Ou ainda, quando essa transposição é feita sem alteração do tempo verbal, mas pela introdução de frases nominais exclamativas:

Enfim os dois padres saíram acompanhados até a porta pelo senhor administrador, que, terminados os deveres públicos reaparecia homem de sociedade. — Então porque não tinha o amigo Silvério vindo à casa da Baronesa de Via Clara? Houvera um voltarete furibundo. O Peixoto levara dois codilhos. Tinha dito blasfêmias medonhasl... Criado de suas senhorias. Estimava bem que tudo se tivesse harmonizado. Cuidado com o degrau... Às ordens de suas senhorias...

Recursos de Linguagem

Já na primeira publicação do romance O Crime do Padre Amaro, Eça mostrou ter traçado para a literatura portuguesa rumos que seriam seguidos por uma nova geração de escritores portugueses e brasileiros.

Infiltrando na sua obra elementos da literatura francesa, fez abundar o pitoresco, a sutileza da ironia, a audaciosa desarticulação da língua e a brincadeira com os valores estabelecidos, enquanto deixava de Lado a disciplina gramatical, o falso academicismo pós-romântico e o gracejo retórico.

Incorporou ao estilo uma visão impressionista da realidade que tem origem na atitude estética da época e no seu temperamento. Apropriou-se da ironia, freqüente na Literatura inglesa, como produto da desfiguração da vida e da fuga do drama. Essa tendência a exprimir os aspectos risíveis da humanidade evidencia-se tanto em simples ironias verbais quanto em contrastes e inversões que conduzem à farsa e à caricatura. E ainda, por meio de procedimentos diversos e recursos técnicos, o autor integrou sua presença à narração, situando-se entre o leitor e os fatos.

Obcecado pelo culto da forma, procurava a perfeição formal, a beleza de uma forma tão pura, que tivesse validade por si mesma, independente de toda outra categoria,6 pois acreditava que havia uma forma única e absoluta para expressar cada realidade do pensamento. Desta forma, via na criação literária um meio para manifestação da beleza expressiva e acreditava que o estilo suplantava a idéia, à medida que o valor desta condicionava-se à perfeição formal pela qual era expressa.

Nesse sentido, podem-se apontar em O Crime do Padre Amaro, dentre muitas outras, algumas peculiaridades. 

Contrariando a inversão, fenômeno sintático comum na expressão escrita da época, Eça privilegia a ordem direta. Essa subversão devia-se não só à influência exercida pela literatura estrangeira sobre sua criação, mas sobretudo à adesão do autor a um movimento de reação contra as antigas normas da prosa literária iniciado na França no século XIX:

...enquanto D.. Maria da Assunção vinha palrando com o moço da Quinta, que segurava a arreata.
 (p. 127)

Quanto à palavra, deixa ver sua preferência pela duplicidade dos adjetivos, mecanismo que Da Cal,7 convencionou chamar adjetivação binária. O par de atributos, geralmente, além da intenção musical e rítmica, atende a processos de origem psicológica, quando, apresenta os lados objetivo e subjetivo das pessoas ou coisas por eles caracterizados:

O pároco era um homem sanguíneo e nutrido...
(p. 15)
 

..esquecia a santidade da Virgem, via apenas diante de si uma linda moça loura...
 (p. 42)
 

Conservava-se direita e cerimoniosa...
 (p. 53)
 

...a voz fina e fresca agradava ao senhor chantre...
 (p. 77)
 

Imaginava já boa vida escandalosa e regalada...
 (p. 105)
 

Mas era a mudez, obstinada e rancorosa, que os incomodava sobretudo.
 (p. 341)
 

Nos seus beiços havia um vermelho quente e úmido...
 (p. 339)
 

...vendo-a chegar tão pálida e tão transtornada, galhofava para a tranquilizar.
 (p. 343)
 

O efeito se acentua, quando a um dos adjetivos substitui uma locução prepositiva. O impacto fica por conta da assimetria e da disjunção:

Era uma criaturinha mirrada, de linhas aduncas...

(p. 64)
 

Essa impressão de discrepância ganha maiores proporções quando amplia-se a perífrase do segundo elemento:

...pele engelhada e cor de cidra...
 (p. 64)
 (p. 15)
Em O Crime do Padre Amaro, a combinação de adjetivos antitéticos “representam a necessidade de expressar as Incompatibilidades reais e aparentes da sua percepção das qualidades das coisas, à procura da harmonia final que resolva o conflito”:8

Era um gozo pequeno, extremamente gordo, — que tinha vagas semelhanças com o pároco.
(p. 16)

E comum ainda esses adjetivos opostos denunciarem uma realidade íntima que, diante dos olhos do narrador! observador, deixa-se encobrir pelas aparências. Nesse âmbito, os atributos antagônicos tentam exprimir e evidenciar uma percepção que é simulada e real ao mesmo tempo.

5. TEXTOS PARA LEITURA

Capítulo III: As origens de Amaro, a ida para o seminário, a falta de convicção religiosa

Amaro Vieira nascera em Lisboa em casa da senhora marquesa de Alegros. Seu pai era criado do marquês; a mãe era criada de quarto; quase uma amiga da senhora marquesa. Amaro conservava ainda um livro, o “Menino das Selvas’, com bárbaras imagens coloridas que tinha escrito na primeira página branca: À minha muito estimada cilada Joana Vieira e verdadeira amiga que sempre tem sido, — Marquesa de Alegros. Possuía também um daguerreótipo de sua mãe: era uma mulher forte, de sobrancelhas cerradas, a boca larga e sensualmente fendida, e uma cor ardente, O pai de Amaro tinha morrido de apoplexia; e a mãe, que fora sempre tão sã, sucumbiu, dai a um ano, a uma tísica de laringe. Amaro completara então seis anos. Tinha uma irmã mais velha que desde pequena vivia com a avó em Coimbra, e um tio, merceeiro abastado do bairro da Estrela. Mas a senhora marquesa ganhara amizade a Amaro; conservou-o em sua casa, por uma adoção tácita: e começou, com grandes escrúpulos, a vigiar a sua educação.

A marquesa de Alegros ficara viúva aos quarenta e três anos, e passava a maior parte do ano retirada na sua quinta de Carcavelos. Era uma pessoa passiva, de bondade indolente, com capela em casa, um respeito devoto pelos padres de S. Luis, sempre preocupada dos interesses da Igreja. As suas duas filhas, educadas no receio do céu e nas preocupações da Moda, eram beatas e faziam o chio falando com igual fervor da humildade cristã e do último figurino de Bruxelas. Um jornalista de então dissera delas: — Pensam todos os dias na toillete com que hão-de entrar no Paraíso.

No isolamento de Carcavelos, naquela quinta de alamedas aristocráticas onde os pavões gritavam, as duas meninas enfastiavam-se. A Religião, a Caridade eram então ocupações avidamente aproveitadas: cosiam vestidos para os pobres da freguesia, bordavam frontais para os altares da igreja. De Maio a Outubro estavam inteiramente absorvidas pelo trabalho de salvar a sua alma; liam os livros beatos e doces; como não tinham S. Carlos, as visitas, a Aline, recebiam os padres e cochichavam sobre a virtude dos santos. Deus era o seu luxo de Verão.

A senhora marquesa resolvera desde logo fazer entrar Amaro na vida eclesiástica. A sua figura amarelada e magrita pedia aquele destino recolhido: era já afeiçoado às coisas de capela, e o seu encanto era estar aninhado ao pé das mulheres, no calor das saias unidas, ouvindo falar de santas. A senhora marquesa não o quis mandar ao colégio porque receava a impiedade dos tempos, e as camaradagens imorais. O capelão da casa ensinava-lhe o latim, e a filha mais velha, a Sra. D. Luisa, que tinha um nariz de cavalete e lia Chateaubriand, dava-lhe lições de francês e de geografia.

Amaro era, como diziam os criados, um “mosquinha-morta”. Nunca brincava, nunca pulava ao sol. Se à tarde acompanhava a senhora marquesa às alamedas da quinta, quando ela descia pelo braço do padre Liset ou do respeitoso procurador Freitas, ia a seu lado, mono, muito encolhido, torcendo com as mãos úmidas o forro das algibeiras, — vagamente assustado das espessuras de arvoredos e do vigor das relvas altas.

Tornou-se muito medroso. Dormia com lamparina, ao pé de uma ama velha. As criadas de resto fermilizavam-no; achavam-no bonito, aninhavam-no no meio delas, beijocavam-no, faziam-lhe cócegas, e ele rolava por entre as saias, em contato com os corpos, com gritinhos de contentamento. As vezes, quando a senhora marquesa saia, vestiam-no de mulher, entre grandes risadas; ele abandonava-se, meio nu, com os seus modos lânguidos, os olhos quebrados, uma roseta escarlate nas faces. As criadas, além disso, utilizavam-no nas suas intrigas umas com as outras: era Amaro o que fazia as queixas. Tornou-se enredador, muito mentiroso.

Aos onze anos ajudava à missa, e aos sábados limpava a capela. Era o seu melhor dia; fechava-se por dentro, colocava os santos em plena luz em cima duma mesa, beijando-os com ternuras devotas e satisfações gulosas; e toda a manhã, muito atarefado, cantarolando o Santíssimo, ia tirando a traça dos vestidos das Virgens e limpando com gesso e crê as auréolas dos Mártires.

No entanto crescia; o seu aspecto era o mesmo, miúdo e amarelado; nunca dava uma boa risada; trazia sempre as mãos nos bolsos. Estava constantemente metido nos quartos das criadas, remexendo as gavetas; bulia nas saias sujas, cheirava os algodões postiços. Era extremamente preguiçoso, e custava de manhã arrancá-lo a uma sonolência doentia em que ficava amolecido, todo embrulhado nos cobertores e abraçado ao travesseiro. Já corcovava um pouco, e os criados chamavam-lhe “o padreca”.

Num domingo gordo, uma manhã, depois da missa, ao chegar-se ao terraço, a senhora marquesa de repente caiu morta com uma apoplexia. Deixava no seu testamento um legado para que Amaro, o filho da sua criada Joana, entrasse aos quinze anos no seminário e se ordenasse. O padre Liset ficava encarregado de realizar esta disposição piedosa. Amaro tinha então treze anos. 

As filhas da senhora marquesa deixaram logo Carcavelos e foram para Lisboa, para a casa da Sra. D. Bárbara de Noronha, sua tia patema. Amaro foi mandado para casa do tio, para a Estrela. O merceeiro era um homem obeso, casado com a filha dum pobre empregado público, que o aceitara para sair da casa do pai, onde a mesa era escassa, ela devia fazer as camas e nunca ia ao teatro. Mas odiava o marido, as suas mãos cabeludas, a loja, o bairro, e o seu apelido de Sra. Gonçalves. O marido, esse adorava-a como a delícia da sua vida, o seu luxo; carregava-a de jóias e chamava-lhe “a sua duquesa”.

Amaro não encontrou ali o elemento feminino e carinhoso, em que estivera tepidamente envolvido em Carcavelos. A tia quase não reparava nele; passava os seus dias lendo romances, as análises dos teatros nos jornais, vestida de seda, coberta de pó-de-arroz, o cabelo em cachos, esperando a hora em que passava debaixo das janelas, puxando os punhos, o Cardoso, galã da Trindade. O merceeiro apropriou-se então de Amaro como duma utilidade imprevista, mandou-o para o balcão. Fazia-o erguer logo às cinco horas da manhã; e o rapaz tremia na sua jaqueta de pano azul, molhando à pressa o pão na chávena de café, ao canto da mesa da cozinha. De resto detestavam-no: a tia chamava-lhe o cebola e o tio chamava-lhe o burro. Pesava-lhes até o magro pedaço de vaca que ele comia ao jantar. Amaro emagrecia, e todas as noites chorava.

Sabia já que aos quinze anos devia entrar no seminário. O tio todos os dias lho lembrava:

— Não penses que ficas aqui toda a vida na vadiagem, burro. Em tendo quinze anos, é para o seminário. Não tenho obrigação de carregar contigo! Besta na argola, não está nos meus princípios!

E o rapaz desejava o seminário, como um libertamento.

Nunca ninguém consultara as suas tendências ou a sua vocação. Impunham-lhe uma sobrepeliz; a sua natureza passiva, facilmente dominável, aceitava-a, como aceitaria uma farda, De resto não lhe desagradava ser padre. Desde que saíra das rezas perpétuas de Carcavelos conservara o seu medo do Inferno, mas perdera o fervor pelos santos; lembravam-lhe porém os padres que vira em casa da senhora marquesa, pessoas brancas e bem tratadas, que comiam ao lado das fidalgas, e tomavam rapé em caixas de ouro; e convinha-lhe aquela profissão em que se cantam bonitas missas, se comem doces finos, se fala baixo com as mulheres, — vivendo entre elas, cochichando, sentindo-lhes o calor penetrante, — e se recebem presentes em bandejas de prata. Recordava o padre Liset com um anel de rubi no dedo mínimo; monsenhor Savedra com os seus belos óculos de ouro, bebendo aos goles o seu copo de Madeira. As filhas da senhora marquesa bordavam-lhes chinelas. Um dia tinha visto um bispo que fora padre na Baia, viajara, estivera em Roma, era muito jovial; e na sala, com as suas mãos ungidas que cheiravam a água-de-colônia, apoiadas ao castão de ouro da bengala, todo rodeado de senhoras em êxtase e cheias dum riso beato, cantava, para as entreter, com a sua bela voz:

Mulatinha da Baia,
Nascida no Capujá...

Um ano antes de entrar para o seminário, o tio fê-lo ir a um mestre para se afirmar mais no latim, e dispensou-o de estar ao balcão. Pela primeira vez na sua existência, Amaro possuiu liberdade. Ia só à escola, passeava pelas ruas. Viu a cidade, o exército de infantaria, espreitou às portas dos cafés, leu os cartazes dos teatros. Sobretudo começara a reparar muito nas mulheres — e vinham-lhe, de tudo o que via, grandes melancolias. A sua hora triste era ao anoitecer, quando voltava da escola, ou aos domingos depois de ter ido passear com o caixeiro ao jardim da Estrela. O seu quarto ficava em cima, na trapeira, com uma janelinha num vão sobre os telhados. Encostava-se ali olhando, e via parte da cidade baixa, que a pouco e pouco se alumiava de pontos de gás: parecia-lhe perceber, vindo de lá, um rumor indefinido: era a vida que não conhecia e que julgava maravilhosa, com cafés abrasados de luz, e mulheres que arrastam ruge-ruges de sedas pelos peristilos dos teatros; perdia-se em imaginações vagas, e de repente apareciam-lhe no fundo negro da noite formas femininas, por fragmentos, uma perna com botinas de duraque e a meia muito branca, ou um braço roliço arregaçado até ao ombro... Mas embaixo, na cozinha, a criada começava a lavar a louça, cantando: era uma rapariga gorda, muito sardenta; e vinham-lhe então desejos de descer, ir roçar-se por ela, ou estar a um canto a vê-la escaldar os pratos; lembravam-lhe outras mulheres que vira nas vielas, de saias engomadas e ruidosas, passeando em cabelo, com botinas cambadas: e, da profundidade do seu ser, subia-lhe uma preguiça, como que a vontade de abraçar alguém, de não se sentir só. Julgava-se infeliz, pensava em matar-se. Mas o tio chamava-o de baixo:

— Então tu não estudas, mariola?

E daí a pouco, sobre o “Tito Lívio” cabeceando de sono, sentindo-se desgraçado, roçando os joelhos um contra o outro, torturava o dicionário.

Por esse tempo começava a sentir um certo afastamento pela vida de padre, porque não poderia casar. Já as convivências da escola tinham introduzido na sua natureza efeminada curiosidades, corrupções. Às escondidas fumava cigarros: emagrecia e andava mais amarelo.

Entrou no seminário. Nos primeiros dias os longos corredores de pedra um pouco úmidos, as lâmpadas tristes, os quartos estreitos e gradeados, as batinas negras, o silêncio regulamentado, o toque das sinetas — deram-lhe uma tristeza lúgubre, aterrada. Mas achou logo amizades; o seu rosto bonito agradou. Começaram a tratá-lo por tu, a admiti-lo, durante as horas de recreio ou nos passeios do domingo, às conversas em que se contavam anedotas dos mestres, se caluniava o reitor, e perpetuamente se lamentavam as melancolias da clausura: porque quase todos falavam com saudade das existências livres que tinham deixado: os da aldeia não podiam esquecer as claras eiras batidas do sol, as esfolhadas cheias de cantigas e de abraços, as filas da boiada que recolhe, enquanto um vapor se exala dos prados; os que vinham das pequenas vilas lamentavam as ruas tortuosas e tranqüilas de onde se namoram as vizinhas, os alegres dias de mercado, as grandes aventuras do tempo em que se estuda latim. Não lhes bastava o pátio do recreio lajeado, com as suas árvores definhadas, os altos muros sonolentos, o monótono jogo da bola: abafavam na estreiteza dos corredores, na sala de Santo lnácio, onde se faziam as meditações da manhã e se estudavam à noite as lições; e invejavam todos os destinos livres ainda os mais humildes — o almocreve que viam passar na estrada tocando os seus machos, o carreiro que ia cantarolando ao áspero chiar das rodas, e até os mendigos errantes, apoiados ao seu cajado, com o seu alforje escuro.

Da janela dum corredor via-se uma volta de estrada: à tardinha uma diligência costumava passar, levantando a poeira, entre os estalidos do chicote, ao trote das três éguas, carregadas de bagagem; passageiros alegres, que levavam os joelhos bem embrulhados, sopravam o fumo dos charutos; quantos olhares os seguiam! quantos desejos iam viajando com eles para as alegres vilas e para as cidades, pela frescura das madrugadas ou sob a claridade das estrelas!

E no refeitório, diante do escasso caldo de hortaliça, quando o regente de voz grossa começava a ler monotonamente as cartas de algum missionário da China ou as Pastorais do senhor bispo, quantas saudades dos jantares de família! As boas postas de peixe! O tempo da matança! Os rijões quentes que chiam no prato! Os sarrabulhos cheirosos!

Amaro não deixava coisas queridas: vinha da brutalidade do tio, do rosto enfastiado da tia coberto de pó-de-arroz; mas insensivelmente pôs-se também a ter saudades dos seus passeios aos domingos, da claridade do gás e das voltas da escola, com os livros numa correia, quando parava encostado à vitrine das lojas a contemplar a nudez das bonecas!

Lentamente, porém, com a sua natureza incaracterística, foi entrando como uma ovelha indolente na regra do seminário. Decorava com regularidade os seus compêndios; tinha uma exatidão prudente nos serviços eclesiásticos; e calado, encolhido, curvando-se muito baixo diante dos lentes — chegou a ter boas notas.

Nunca pudera compreender os que pareciam gozar o seminário com beatitude e maceravam os joelhos, ruminando, com a cabeça baixa, textos da “Imitação” ou de Santo lnácio; na capela, com os olhos em alvo, empalideciam de êxtase; mesmo no recreio, ou nos passeios, iam lendo algum volumezinho “Louvares a Maria”; e cumpriam com delicia as regras mais miúdas — até subir só um degrau de cada vez, como recomenda S. Boaventura. A esses o seminário dava um antegosto do Céu: a ele só lhe oferecia as humilhações duma prisão, com os tédios duma escola.

Não compreendia também os ambiciosos; os que queriam ser caudatários dum bispo, e nas altas salas dos paços episcopais erguer os reposteiros de velho damasco; os que desejavam viver nas cidades depois de ordenados, servir uma Igreja aristocrática, e, diante das devotas ricas que se acumulam no frufru das sedas sobre o tapete do altarmor, cantar com voz sonora. Outros sonhavam até destinos fora da Igreja: ambicionavam ser militares e arrastar nas ruas lajeadas o tlin-tlim de um sabre; ou a farta vida da lavoura, e desde a madrugada, com um chapéu desabado e bem montados, trotar pelos caminhos, dar ordens nas largas eiras cheias de medas, apear à porta das adegas! E, a não ser alguns devotos, todos, ou aspirando ao sacerdócio ou aos destinos seculares, queriam deixar a estreiteza do seminário para comer bem, ganhar dinheiro e conhecer as mulheres.

Amaro não desejava nada:

— Eu nem sei, dizia ele melancolicamente.

No entretanto, escutando por simpatia aqueles para quem o seminário era o “tempo das galés”, saia muito perturbado daquelas conversas cheias de impaciente ambição da vida livre. Às vezes falavam de fugir. Faziam planos calculando a altura das janelas, as peripécias da noite negra pelos negros caminhos: anteviam balcões de tabernas onde se bebe, salas de bilhar, alcovas quentes de mulheres. Amara ficava todo nervoso: sobre o seu catre, alta noite, revolvia-se sem dormir, e, no fundo das suas imaginações e dos seus sonhos, ardia como uma brasa silenciosa o desejo da Mulher.

Na sua cela havia uma imagem da Virgem coroada de estrelas, pousada sobre a esfera, com o olhar errante pela luz imortal, calcando aos pés a serpente. Amaro voltava-se para ela como para um refúgio, rezava-lhe a salve-rainha: mas, ficando a contemplar a litografia, esquecia a santidade da Virgem, via apenas diante de si uma linda moça loura; amava-a; suspirava, despindo-se olhava-a de revés lubricamente; e mesmo a sua curiosidade ousava erguer as pregas castas da túnica azul da imagem e supor formas, redondezas, uma carne branca... Julgava então ver os olhos do Tentador luzir na escuridão do quarto; aspergia a cama de água benta; mas não se atrevia a revelar estes delírios, no confessionário, ao domingo.

Quantas vezes ouvira, nas prédicas, o mestre de Moral falar, com a sua voz roufenha, do Pecado, compará-lo à serpente e com palavras untuosas e gestos arqueados, deixando cair vagarosamente a pompa melíflua dos seus períodos, aconselhar os seminaristas a que, imitando a Virgem, calcassem aos pés a serpente ominosa! E depois era o mestre de Teologia mística que falava, sorvendo o seu rapé, no dever de vencer a Natureza! E citando S. João de Damasco e S. Crisólogo, S. Cipriano e S. Jerónimo, explicava os anátemas dos santos contra a Mulher, a quem chamava, segundo as expressões da lgreja, Serpente, Dardo. Filha da Mentira, Porta do Inferno, Cabeça do Crime, Escorpião...

— E como disse o nosso padre S. Jerónimo — e assoava-se estrondosamente — Caminho de Iniquidades, iniquita via!

Até nos compêndios encontrava a preocupação da Mulher! Que ser era esse, pois, que através de toda a teologia ora era colocada sobre o altar como a Rainha da Graça, ora amaldiçoada com apóstrofes bárbaras? Que poder era o seu, que a legião dos santos ora se arremessa ao seu encontro, numa paixão extática, dando-lhe por aclamação o profundo reino dos Céus, — ora vai fugindo diante dela como do Universal Inimigo, com soluços de terror e gritos de ódio, e escondendo-se, para a não ver, nas tebaidas e nos claustros, vai ali morrendo do mal de a ter amado? Sentia, sem as definir, estas perturbações: elas renasciam, desmoralizavam-no perpetuamente: e já antes de fazer os seus votos desfalecia no desejo de os quebrar.

E em redor dele, sentia iguais rebeliões da natureza: os estudos, os jejuns, as penitências podiam domar o corpo, dar-lhe hábitos maquinais, mas dentro os desejos moviam-se silenciosamente, como num ninho serpentes imperturbadas. Os que mais sofriam eram os sangüíneos, tão doloridamente apertados na Regra como os seus grossos pulsos plebeus nos punhos das camisas. Assim, quando estavam sós, o temperamento irrompia: lutavam, faziam forças, provocavam desordens. Nos linfáticos a natureza comprimida produzia as grandes tristezas, os Silêncios moles: desforravam-se então no amor dos pequenos vícios: jogar com um velho baralho, ler um romance, obter de intrigas demoradas um maço de cigarros — quantos encantos do pecado!

Amaro por fim quase invejava os estudiosos; ao menos esses estavam contentes, estudavam perpetuamente, escrevinhavam notas no silêncio da alta livraria, eram respeitados, usavam óculos, tomavam rapé, Ele mesmo tinha ás vezes ambições repentinas de ciência; mas diante dos vastos in-fólios vinha-lhe um tédio insuperável. 
Era no entanto devoto: rezava, tinha fé ilimitada em certos santos, um terror angustioso de Deus. Mas odiava a clausura do seminário! A capela, os chorões do pátio, as comidas monótonas do longo refeitório lajeado, os cheiros dos corredores, tudo lhe dava uma tristeza irritada: parecia-lhe que seria bom, puro, crente, se estivesse na liberdade duma rua ou na paz dum quintal, fora daquelas negras paredes. Emagrecia, tinha suores éticos: e mesmo no último ano, depois do serviço pesado da Semana Santa, como começavam os calores, entrou na enfermaria com uma febre nervosa.

Ordenou-se enfim pelas têmporas de S. Mateus; e pouco tempo depois recebeu, ainda no seminário, esta carta do Sr. padre Liset:

“Meu querido filho e novo colega. — Agora que está ordenado, entendo em minha consciência que devo dar-lhe conta do estado dos seus negócios, pois quero cumprir até o fim o encargo com que carregou os meus ombros débeis a nossa chorada marquesa, atribuindo-me a honra de administrar o legado que lhe deixou, Porque, ainda que os bens mundanos pouco devam importar a uma alma votada ao sacerdócio, são sempre as boas contas que fazem os bons amigos. Saberá, pois, meu querido filho, que o legado da querida marquesa, — para quem deve erguer em sua alma uma gratidão eterna —está inteiramente exausto. Aproveito esta ocasião para lhe dizer que depois da morte de seu tio, sua tia, tendo liquidado o estabelecimento, se entregou a um caminho que o respeito me impede de qualificar — caiu sob o império das paixões, e tendo-se ligado ilegitimamente, viu os seus bens perdidos juntamente com a sua pureza, e hoje estabeleceu uma casa de hóspedes na Rua dos Calafates nº 53. Se toco nestas impurezas, tão impróprias de que um tenro levita, como o meu querido filho, tenha delas conhecimento, é porque lhe quero dar cabal relação da sua respeitável família. Sua irmã, como decerto sabe, casou rica em Coimbra, e ainda que no casamento não é o ouro que devemos apreciar, é todavia importante, para futuras circunstâncias, que o meu querido filho esteja de posse deste facto. Do que me escreveu o nosso querido reitor a respeito de o mandarmos para a freguesia de Feirão, na Gralheira, vou falar com algumas pessoas importantes que têm a extrema bondade de atender um pobre padre que só pede a Deus misericórdia. Espero, todavia, conseguir. Persevere, meu querido filho, nos caminhos da virtude, de que sei que a sua boa alma está repleta, e creia que se encontra a felicidade neste nosso santo ministério quando sabemos compreender quantos são os bálsamos que derrama no peito e quantos os refrigérios que dá — o serviço de Deus! Adeus, meu querido filho e novo colega. Creia que sempre o meu pensamento estará com o pupilo da nossa chorada marquesa, que decerto do Céu, onde a elevaram as suas virtudes, suplica à Virgem, que ela tanto serviu e amou, a felicidade do seu caro pupilo. Liset.

P.S. — O apelido do marido de sua irmã é Trigoso. Liset. (...)”

Neste capítulo, o narrador descreve as origens de Amaro. A criação pela marquesa de Alegros e os trejeitos de “rapazola futriqueiro” adquiridos no meio da criadagem da casa revelam os primeiros aspectos de seu caráter. Indolente e involuntarioso aceita a carreira religiosa para fugir dos contratempos que lhe acarretam a morte da marquesa.

No seminário, a sua falta de convicção religiosa fica patente no misto de fervor e lascívia com que cultua a imagem da virgem Maria.
 

Capítulo IV: A atração por Amélia

(...) Amaro foi para o seu quarto, começou a rezar no Breviário; mas distraia-se, lembravam-lhe as figuras das velhas, os dentes podres de Artur, sobretudo o perfil de Amélia. Sentado à beira da cama, com o Breviário aberto, fitando a luz, via o seu penteado, as suas mãos pequenas com os dedos um pouco trigueiros picados da agulha, o seu buçozinho gracioso...

Sentia a cabeça pesada do jantar do cônego e da monotonia do quino, com uma grande sede além disso das lulas e do vinhito do Porto. Quis beber, mas não tinha água no quarto. Lembrou-se então que na sala de jantar havia uma bilha de Estremoz com água fresca, muito boa, da nascente do Morenal. Calçou as chinelas, tomou o castiçal, subiu devagarinho. Havia luz na sala, estava o reposteiro corrido; ergueu-o e recuou com um “Ah!” Vira num relance Amélia, em saia branca a desfazer o atacador do colete; estava junto do candeeiro e as mangas curtas, o decote da camisa deixavam ver os seus braços brancos, o seio delicioso. Ela deu um pequeno grito, correu para o quarto.

Amaro ficou imóvel, com um suor à raiz dos cabelos. Poderiam suspeitar uma ofensa! Palavras indignadas iam sair decerto através do reposteiro do quarto, que ainda se balouçava agitado!

Mas a voz de Amélia, serena, perguntou de dentro:

— Que queria, senhor pároco?

— Vinha buscar água, balbuciou ele.

— Aquela “Ruça”! aquela desleixada! Desculpe, senhor pároco, desculpe. Olhe ai ao pé da mesa, a bilha. Achou?

— Achei! achei!

Desceu devagar com o copo cheio: a mão tremia-lhe, a água escorria-lhe pelos dedos.

Deitou-se sem rezar. Alta noite Amélia sentiu por baixo passos nervosos pisarem o soalho: era Amaro que, com o capote aos ombros e em chinelas, fumava, excitado, pelo quarto.

Mais tarde, já instalado na casa da Sra. Joaneira, na província de Leiria, o desejo toma-lhe a alma, sobrepondo-se de vez à pseudo-vocação religiosa.

Os instintos falam mais alto, quando passa a conviver junto à Amélia. A minúcia com que o narrador descreve o corpo que se deixava ver sobre os trajes noturnos da jovem beata revelam o clima de sensualidade que será trabalhado pelo autor durante toda a obra.
 

Capítulo VI: O Caso entre Sra. Joaneira e Cônego Dias

(...) Um dia Amaro jantara em casa da Sra. D. Maria da Assunção; fora depois passear pela estrada de Marrazes, e à volta, ao fim da tarde, encontrou, ao entrar em casa, a porta da rua aberta; sobre o capacho, no patamar, estavam os chinelos de ourela da “Ruça”.

—Tonta de rapariga! pensou Amaro, foi à fonte e esqueceu-se de fechar a porta.

Lembrou-se que Amélia tinha ido passar a tarde com a sra. D. Joaquina Gansoso, numa fazenda ao pé da Piedade, e que a Sra. Joaneira falara em ir à irmã do cônego. Fechou devagar a cancela, subiu à cozinha a acender o seu candeeiro; como as ruas estavam molhadas da chuva da manhã, trazia ainda galochas de borracha; os seus passos não faziam rumor no soalho; ao passar diante da sala de jantar sentiu no quarto da Sra. Joaneira, através do reposteiro de chita, uma tosse grossa; surpreendido, afastou sutilmente um lado do reposteiro, e pela porta entreaberta espreitou. — Oh Deus de Misericórdia! A Sra. Joaneira, em saia branca, atacava o colete; e, sentado à beira da cama, em mangas de camisa, o cônego Dias resfolegava grosso!

Amaro desceu, colado ao corrimão, fechou muito devagarinho a porta, e foi ao acaso para os lados da Sé. O céu enevoara-se, leves gotas de chuva caiam.

—E esta! E esta! dizia ele assombrado.

Nunca suspeitara um tal escândalo! A Sra. Joaneira, a pachorrenta Sra. Joaneira! O cônego, seu mestre de Moral! E era um velho, sem os ímpetos do sangue novo, já na paz que lhe deveriam ter dado a idade, a nutrição, as dignidades eclesiásticas! Que faria então um homem novo e forte, que sente urna vida abundante no fundo das suas veias reclamar e arder! Era, pois, verdade o que se cochichava no seminário, o que lhe dizia o velho padre Sequeira, cinqüenta anos padre da Gralheira: — “Todos são do mesmo barro!” Todos são do mesmo barro, —sobem em dignidades, entram nos cabidos, regem os seminários, dirigem as consciências envoltos em Deus como numa absolvição permanente, e têm no entanto, numa viela, uma mulher pacata e gorda, em casa de quem vão repousar das atitudes devotas e da austeridade do ofício, fumando cigarros de estanco e palpando uns braços rechonchudos!

Vinham-lhe então outras reflexões: que gente era aquela, a Sra. Joaneira e a filha, que viviam assim sustentadas pela lubricidade tardia de um velho cônego? A Sra. Joaneira fora decerto bonita, bem-feita, desejável — outrora! Por quantos braços teria passado até chegar, pelos declives da idade, àqueles amores senis e mal pagos? As duas mulherinhas, que diabo, não eram honestas! Recebiam hóspedes, viviam da concubinagem. Amélia ia sozinha à igreja, às compras, à fazenda; e com aqueles olhos tão negros, talvez já tivesse tido um amante! — Resumia, filiava certas recordações: um dia que ela lhe estivera mostrando na janela da cozinha um vaso de rainúnculos, tinham ficado sós, e ela, muito corada, pusera-lhe a mão sobre o ombro e os seus olhos reluziam e pediam; outra ocasião ela roçara-lhe o peito pelo braço! A noite caíra, com uma chuva fina. Amaro não a sentia, caminhando depressa, cheio de uma só idéia deliciosa que o fazia tremer: ser o amante da rapariga, como o cônego era o amante da mãe! Imaginava já a boa vida escandalosa e regalada; enquanto em cima a grossa S. Joaneira beijocasse o seu cônego cheio de dificuldades asmáticas — Amélia desceria ao seu quarto, pé ante pé, apanhando as saias brancas, com um xale sobre os ombros nus... Com que frenesi a esperaria! E já não sentia por ela o mesmo amor sentimental, quase doloroso: agora a idéia muito magana dos dois padres e as duas concubinas, de panelinha, dava àquele homem amarrado pelos votos uma satisfação depravada! lá aos pulinhos pela rua. — Que pechincha de casa!

A chuva caía, grossa. Quando entrou havia já luz na sala de jantar. Subiu.

—Ih, como vem frio! disse-lhe Amélia sentindo, ao apertar-lhe a mão, a umidade da névoa.

Sentada à mesa, costurava com um xale-manta pelos ombros: João Eduardo, ao pé, jogava a bisca com a Sra. Joaneira.

Amaro sentou-se um pouco embaraçado; a presença do escrevente dera-lhe de repente, sem saber por quê, o duro choque duma realidade antipática: e todas as esperanças, que lhe tinham vindo a dançar uma sarabanda na imaginação, encolhiam-se uma a uma, murchavam — vendo ali Amélia ao pé do noivo, curvada sobre uma costura honesta, com o seu escuro vestido afogado, junto do candeeiro de família!

E tudo em redor lhe parecia como mais recatado, as paredes com o seu papel de ramagens verdes, o armário cheio de louça luzidia da Vista Alegre, o simpático e bojudo pote de água, o velho piano mal firme nos seus três pés torneados; o paliteiro tão querido de todos — um cupido rechonchudo com um guarda-chuva aberto eriçado de palitos, e aquela tranqüila bisca jogada com os dichotes clássicos, Tudo tão decente!

Afirmava-se então nas grossas roscas do pescoço da Sra. Joaneira, como para descobrir nelas as marcas das beijocas do cônego: Ah! tu, não há dúvida, és “uma barregã de clérigo”. Mas Amélia! com aquelas longas pestanas descidas, o beiço tão fresco!... Ignorava decerto as libertinagens da mãe; ou, experiente, estava bem resolvida a estabelecer-se solidamente na segurança dum amor legal! — E Amaro, da sombra, examinava-a longamente como para se certificar, na placidez do seu rosto, da virgindade do seu passado.

— Cansadinho, senhor pároco, hein? disse a Sra. Joaneira. E para João Eduardo: 

— Trunfo, faz favor, seu cabeça no ar!

O escrevente, namorado, distraia-se.

— É o senhor a jogar, dizia-lhe a Sra. Joaneira a cada momento.

Depois ele esquecia-se de “comprar cartas”.

—Ah menino, menino! dizia ela com a sua voz pachorrenta, que lhe puxo essas orelhas!

Amélia ia cosendo com a cabeça baixa: tinha um pequeno casabeque preto com botões de vidro, que lhe disfarçava a forma do seio.

E Amara irritava-se daqueles olhos fixos na costura, daquele casaco amplo escondendo a beleza que mais apetecia nela! E nada a esperar! Nada dela lhe pertenceria, nem a luz daquelas pupilas, nem a brancura daqueles peitos! Queria casar — e guardava tudo para o outro, o idiota, que sorria baboso, jogando paus! Odiou-o então, dum ódio complicado de inveja ao seu bigode negro e ao seu direito de amar...

— Está incomodado, senhor pároco? perguntou Amélia, vendo-o mexer-se bruscamente na cadeira.

— Não, disse ele secamente.

— Ah! fez ela, com um leve suspiro, picando rapidamente o pesponto.

O escrevente, baralhando as cartas, começara a falar de uma casa que queria alugar; a conversa caiu sobre arranjos domésticos.

—Traz-me luz! gritou Amaro à “Ruça”.

Desceu para o seu quarto, desesperado. Pôs a vela sobre a cômoda; o espelho estava defronte, e a sua imagem apareceu-lhe; sentiu-se feio, ridículo com a sua cara rapada, a volta hirta como urna coleira, e por trás a coroa hedionda. Comparou-se instintivamente com o outro que tinha um bigode, o seu cabelo todo, a sua liberdade! Para que hei-de eu estar a ralarme?

A facilidade com que o caráter do padre molda-se às situações evidencia-se nesse capítulo. Se, em princípio, ao descobrir casualmente o romance do Cônego Dias com a sua anfitriã, o jovem pároco é tomado de súbito espanto e não hesita em conjeturar sobre os desvios do caráter da S. Joaneira e de sua filha. Em seguida, entretanto, vislumbra a possibilidade de beneficiar-se do romance escuso para aproximar-se de Amélia.

Capítulo VII: Os desmandos dos cleros

0 bom abade puxou, repoltreando-se, o guardanapo para o estômago, e disse com afecto:

- A pobreza agrada a Deus Nosso Senhor.

- Ai filhos! acudiu o Libaninha num tom choroso, se houvesse só pobrezinhos isto era o Reininho dos Céus!

O padre Amaro considerou com gravidade:

- É bom que haja quem tenha cabedais para legados pias, edificações de capelas...

- A propriedade devia estar na mão da Igreja, interrompeu Natário com autoridade.

O cônego Dias arrotou com estrondo e acrescentou:

- Para o esplendor do culto e propagação da fé.

- Mas a grande causa da miséria, dizia Natário com uma voz pedante, era a grande imoralidade.

- Ah! lá isso não falemos! exclamou o abade com desgosto. Neste momento há só aqui na freguesia mais de doze raparigas solteiras grávidas! Pois senhores, se as chamo, se as repreendo, põem-se a fungar de riso!

- Lá nos meus sítios, disse o padre Brita, quando foi pela apanha da azeitona, como há falta de braços, vieram as maltas trabalhar. Pois agora o verás! Que desaforo! - Contou a história das maltas, trabalhadores errantes, homens e mulheres, que andam oferecendo os braços pelas fazendas, vivem na promiscuidade e morrem na miséria. — Era necessário andar sempre de cajado em cima deles!

- Ai! disse o Libaninho para os lados apertando as mãos na cabeça. Ai, o pecado que vai pelo mundo! Até se me estão a eriçar os cabelos!

Mas a freguesia de Santa Catarina era a pior! As mulheres casadas tinham perdido todo o escrúpulo.

— Piores que cabras, dizia o padre Natário alargando a fivela do colete.

E o padre Brito falou dum caso na freguesia de Amor: raparigas de dezesseis e dezoito anos que costumavam reunir-se num palheiro — o palheiro do Silvério — e passavam lá a noite com um bando de marmanjos!

Então o padre Natário, que já tinha os olhos luzidios, a língua solta, disse repoltreando-se na cadeira e espaçando as palavras:

— Eu não sei o que se passa lá na tua freguesia, Brito; mas se há alguma coisa, o exemplo vem de alto... A mim têm-me dito que tu e a mulher do regedor...

- É mentira! exclamou o Brito, fazendo-se todo escarlate.

- Oh, Brito! Oh, Brito! disseram em redor, repreendendo-o com bondade.

- É mentira! berrou ele.

- E aqui para nós, meus ricos, disse o cônego Dias baixando a voz, com o olhinho aceso numa malícia confidencial, sempre lhes digo que é uma mulher de mão cheia!

- É mentira! clamou o Brito. E falando de um jato: —Quem anda a espalhar isso é o morgado da Cumeada, porque o regedor não votou com ele na eleição... Mas tão certo como eu estar aqui, quebro-lhe os ossos! — Tinha os olhos injetados, brandia o punho: 

- Quebro-lhe os ossos!

- O caso não é para tanto, homem, considerou Natário.

- Quebro-lhe os ossos! Não lhe deixo um inteiro!

- Ai, sossega, leãozinho! disse o Libaninho com ternura. Não te percas, filhinho!

Mas recordando a influência do morgado da Cumeada, que era então oposição e que levava duzentos votos à urna, os padres falaram de eleições e dos seus episódios. Todos ali, a não ser o padre Amaro, sabiam, como disse Natário, “cozinhar um deputadozinho”. Vieram anedotas; cada um celebrou as suas façanha.

O padre Natário na última eleição tinha arranjado oitenta votos!

- Cáspite! disseram.

- Imaginem vocês como? Com um milagre!

- Com um milagre? repetiram espantados.

- Sim, senhores.

Tinha-se entendido com um missionário, e na véspera da eleição receberam-se na freguesia cartas vindas do Céu e assinadas pela Virgem Maria, pedindo, com promessas de salvação e ameaças do Inferno, votos para o candidato do governo. De chupeta, hem?

- De mão-cheia! disseram todos.

Só Amaro parecia surpreendido.

- Homem! disse o abade com ingenuidade, disso é que eu cá precisava. Eu então tenho de andar ai a estafar-me de porta em porta. — E sorrindo bondosamente: — Com o que se faz ainda alguma coisita é com o relaxe da côngrua!

- E com a confissão, disse o padre Natário. A coisa então vai pelas mulheres, mas vai segura! Da confissão tira-se grande partido.

O padre Amaro, que estivera calado, disse gravemente:

- Mas enfim a confissão é um ato muito sério, e servir, assim para eleições...

O padre Natário, que tinha duas rosetas escarlates na face e gestos excitados, soltou uma palavra imprudente:

- Pois o senhor toma a confissão a sério?

Houve unia grande surpresa.

- Se tomo a confissão a sério? gritou o padre Amaro recuando a cadeira, com os olhos arregalados.

- Ora essa! exclamaram. Oh, Natário! Oh, menino!

O padre Natário exaltado queria explicar, atenuar:

- Escutem, criaturas de Deus! Eu não quero dizer que a confissão seja uma brincadeira! lrra! Eu não sou pedreiro-livre. O que eu quero dizer é que um meio de persuasão, de saber o que se passa, de dirigir o rebanho para aqui ou para ali... E quando é para o serviço de Deus, é uma arma. Ai está o que é — a absolvição é uma arma!

- Uma arma! exclamaram.

O abade protestava, dizendo:

- Oh, Natário! oh, filho! isso não!

O Libaninho tinha-se benzido; e, dizia, “tinha já um tal terror que até lhe tremiam as pernas”!

Natário irritou-se:

- Então talvez me queiram dizer, gritou, que qualquer de nós, pelo fato de ser padre, parque o bispo lhe impôs três vezes as mãos e porque lhe disse o accipe, tem missão direta de Deus, — é Deus mesmo para absolver?!

- Decerto! - exclamaram -, decerto!

E o cônego Dias disse meneando uma garfada de bages:

- Quorum remiseris peccata, remittuntur eis. É a fórmula. A fórmula é tudo, menino...

- A confissão é a essência mesma do sacerdócio —, soltou o padre Amaro com gestos escolares, fulminando Natário. — Leia Santo lnácio! Leia S. Tomás!

- Anda-me com ele! gritava o Libaninho pulando na cadeira, apoiando Amaro. — Anda-me com ele, amigo pároco! Salta-me no cachaço do ímpio!

- Oh, senhores! — berrou Natário furioso com a contradição —, o que eu quero é que me respondam a isto. — E voltando-se para Amaro: — O senhor, por exemplo, que acaba de almoçar, que comeu o seu pão torrado, tomou o seu café, fumou o seu cigarro, e que depois se vai sentar no confessionário, às vezes preocupado com negócios de família ou com faltas de dinheiro, ou com dores de cabeça, ou com dores de barriga, imagina o senhor que está ali como um Deus para absolver?

O argumento surpreendeu.

O cônego Dias, pousando o talher, ergueu os braços, e com uma solenidade cômica exclamou:

- Hereticus est! É herege!

- Rereticus est! também eu digo, rosnou o padre Amaro.

Mas a Gertrudes entrava com a larga travessa do arroz-doce,

- Não falemos nessas coisas, não falemos nessas coisas, disse logo prudentemente o abade. Vamos ao arrozinho. Gertrudes, dá cá a garrafinha do Podo!

Natário, debruçado sobre a mesa, ainda arremessava argumentos a Amaro:

- Absolver é exercer a graça. A graça só é atributo de Deus: em nenhum autor encontro que a graça seja transmissível. Logo...

- Ponho duas objeções.., gritou Amaro, com o dedo em riste, em atitude de polêmica.

- Oh, filhos! Oh, filhos, acudiu o bom abade aflito. - Deixem a sabatina, que até nem lhes sabe o arrozinho!

Serviu o vinho do Podo, para os acalmar, enchendo os copos devagar, com as precauções clássicas:

- Mil oitocentos e quinze! — dizia. — Disto não se bebe todos os dias.

Para o saborear, depois de o fazer reluzir à luz na transparência dos copos, repoltreavam-se nas velhas cadeiras de couro; começaram as saúdes! A primeira foi ao abade, que murmurava: — Muita honra... muita honra...

- Tinha os olhos chorosos de satisfação.

- A Sua Santidade Pio IX! gritou então o Libaninho brandindo o cálice. Ao mártir!

Todos beberam comovidos. Libaninho entoou em voz de falsete o hino de Pio IX: o abade, prudente, fê-lo calar por causa do hortelão que no quintal aparava o buxo.

A sobremesa foi longa, muito saboreada. Natário tornara-se terno, falava das suas sobrinhas, “as suas duas rosas”, e citava Virgílio, molhando as castanhas em vinho. Amaro, todo deitado para trás na cadeira, as mãos nos bolsos, olhava maquinalmente as árvores do jardim, pensando vagamente em Amélia, nas suas formas; suspirou mesmo com um desejo dela — enquanto o padre Brito, rubro, queria convencer os republicanos a marmeleiro.

- Viva o marmeleiro do padre Brito! gritou entusiasmado o Libaninho.

Mas Natário começara a discutir com o cônego história eclesiástica: e, muito questionador, voltou aos seus argumentos vagos sobre a doutrina da Graça: afirmava que um assassino, um parricida poderia ser canonizado - se se tivesse revelado o estado de Graça! Divagava, com frases de escola em que se lhe pegava a língua. Citou santos que tinham sido escandalosos; outros que pela sua profissão deviam ter conhecido, praticado, amado o vício. Exclamou com as mãos na cinta:

- Santo lnácio foi militar!

- Militar? — gritou o Libaninho. — E erguendo-se, correndo a Natário, lançando-lhe um braço ao pescoço com uma ternura pueril e avinhada: — Militar? E que era ele? Que era ele, o meu devoto Santo lnácio?

Natário repeliu-o:

- Deixe-me, homem! Era sargento de caçadores.

Houve uma enorme risada.

O Libaninho ficara extático.

- Sargento de caçadores! - dizia erguendo as mãos num ímpeto beato. — Meu rico Santo lnácio! Bendito e louvado seja ele por toda a Eternidade!

E então o abade propôs que fossem tomar café para debaixo da parreira.

Eram três horas. Ao erguer-se todos cambaleavam um pouco, arrotando formidavelmente, com risadas espessas; só Amaro tinha a cabeça lúcida, as pernas firmes — e sentia-se muito terno.

- Pois agora, colegas - disse o abade sorvendo o último gole de café — o que está a calhar é um passeio à fazenda.

- Para esmoer - rosnou o cônego erguendo-se com dificuldade. — Vamos lá à fazenda do abade!

Foram pelo atalho da Barroca, um caminho estreito de carros...

Reunidos por ocasião de um farto almoço, os párocos comentam a promiscuidade em que vivem as famílias das classes trabalhadoras e o rigor com que se deve punir suas extravagâncias. Natário não se furta a constranger Brito, falando-lhe dos rumores sobre seu suposto caso com a esposa do regedor. Os padres, então tecem comentários sobre a influência do clero nas atividades políticas. E, por fim, Natário expõe o poder de manipulação que concede a um padre a confissão.

Capítulo XIX: A gravidez de Amélia

—O senhor cônego? Quero-lhe falar. Depressa!

A criada dos Dias indicou ao padre Amaro o escritório, e correu a cima contar a D. Josefa que o senhor pároco viera procurar o senhor cônego, e com uma cara tão transtornada que decerto tinha sucedido alguma desgraça!

Amaro abrira abruptamente a porta da escritório, fechou-a de repelão, e sem mesmo dar os bons-dias ao colega, exclamou:

- A rapariga está grávida!

O cônego, que estava escrevendo, caiu como uma massa fulminada para as costas da cadeira:

- Que me diz você?

- Grávida!

E no silêncio que se fez o soalho gemia sob os passeios furiosos do pároco da janela para a estante.

- Está você certo disso? perguntou enfim o cônego com pavor.

- Certíssimo! A mulher já há dias andava desconfiada. Já não fazia senão chorar... Mas agora é certo... As mulheres conhecem, não se enganam. Há todas as provas... Que hei-de eu fazer,  Padre-Mestre?

- Olha que espiga! — ponderou o cônego atordoado.

- Imagine você o escândalo! A mãe, a vizinhança... E se suspeitam de mim?... Estou perdido... Eu não quero saber, eu fujo!

O cônego coçava estupidamente o cachaço, com o beiço caído como uma tromba. Representavam-se-lhe já os gritos em casa, a noite do parto, a Sra. Joaneira eternamente em lágrimas, toda a sua tranqüilidade extinta para sempre...

- Mas diga alguma coisa! gritou-lhe Amaro desesperado. Que pensa você? Veja se tem alguma idéia... Eu não sei, eu estou idiota, estou de toda!

- Ai estão as conseqüências, meu caro colega.

- Vá para o inferno, homem! Não se trata de moral... Está claro que foi uma asneira... Adeus, está feita!

- Mas então que quer você? disse o cônego. Não quer decerto que se dê uma droga à rapariga, que a arrase...

Amaro encolheu os ombros, impaciente com aquela idéia insensata. O padre-mestre, positivamente, estava divagando...

- Mas então que quer você? — repetia o cónego num tom cavo, arrancando as palavras ao abismo do tórax.

- Que quero! Quero que não haja escândalo! Que hei-de eu querer?

- De quantos meses está ela?

- De quantos meses? Está de agora, está de um mês...

- Então é casá-la! — exclamou o cônego com explosão. — Então é casá-la com o escrevente!

O padre Amaro deu um pulo:

- Com os diabos, tem você razão! É de mestre!

O cônego afirmou gravemente com a cabeça que era “de mestre”.

- Casá-la já! Enquanto é tempo! Pater est quem nuptiae demonstrant... Quem é marido é que é pai.

Mas a porta abriu-se, e apareceram os óculos azuis, a touca negra de D. Josefa. Não se pudera conter em cima, na cozinha, tomada dum frenesi agudo de curiosidade; descera na ponta das chinelas e colara o ouvido à fechadura do escritório; mas o grosso reposteiro de baetão estava cerrado por dentro, um ruído de lenha que se descarregava na rua abafava as vozes. A boa senhora então decidiu-se a entrar, “a dar os bons-dias ao senhor pároco".

Mas debalde, por detrás dos vidros defumados, os seus olhinhos agudos esquadrinharam ansiosamente o carão espesso do mano e a face pálida de Amaro. Os dois sacerdotes estavam impenetráveis como duas janelas fechadas. O pároco mesmo falou ligeiramente do reumático do senhor chantre, da notícia que corria sobre o casamento do senhor secretário-geral... Ao fim duma pausa ergueu-se, contou que tinha nesse dia uma famosa orelheira para o jantar — e a sra. D. Josefa, roendo-se, viu-o abalar depois de ter dito já por detrás do reposteiro ao cónego:

- Então até à noite em casa da Sra. Joaneira, Padre-Mestre, hem?

- Até à noite.

E o cônego, muito grave, continuou a escrever. D. Josefa então não se conteve; e depois de arrastar um momento as chinelas em torno do banco do mano:

- Há novidade?

- Grande novidade, mana! — disse-lhe o cónego, sacudindo os bicos da pena. Morreu o senhor D. João VI!

- Malcriado! - rugiu ela rodando sobre os sapatões, cruelmente perseguida por uma risadinha do mano.

Foi à noite, embaixo, na saleta da Sra. Joaneira, enquanto Amélia em cima, com a morte na alma, martelava a “Valsa dos Dois Mundos”, que os dois padres, muito chegados no canapé, de cigarro nos dentes, por debaixo do tenebroso painel onde a vaga mão do cenobita se estendia em garra sobre a caveira, cochicharam o seu plano: -  antes de tudo era necessário achar João Eduardo, que desaparecera de Leiria; a Dionísia, mulher de faro, ia bater todos os recantos da cidade para descobrir a toca em que a fera se acoutava; depois, imediatamente, porque o tempo urgia, Amélia escreverlhe-ia... Só quatro palavras simples: que soubera que ele fora vítima duma intriga; que nunca perdera nada da amizade que lhe tinha; que lhe devia uma reparação; e que viesse vê-la... Se o rapaz hesitasse agora, o que não era provável (o cónego afirmava-o), fazia-se-lhe reluzir a esperança do emprego no governo civil, fácil de obter pelo Godinho, inteiramente governado pela mulher, que era uma escravazinha do padre Silvério...

- Mas o Natário — disse Amaro — o Natário que detesta o escrevente, que dirá ele a esta revolução?

- Homem, exclamou o cônego com uma grande palmada na coxa, que me tinha esquecido! Pois você não sabe o que aconteceu ao pobre Natário?...

Amaro não sabia.

- Quebrou uma perna! Caiu da égua!

- Quando?

- Esta manhã. Eu soube-o agora à noitinha. Eu sempre lhe disse: homem, esse animal ferra-lhe alguma! Pois senhores, ferrou-lha. E tesa! Tem pra peras... E eu que me tinha esquecido! Nem as senhoras lá em cima sabem nada.

Foi uma desolação, em cima, quando souberam. Amélia fechou o piano, Todos lembraram logo remédios que se lhe devia mandar, foi uma gralhada de oferecimentos - ligaduras, fios, um ungüento das freiras de Alcobaça, meia garrafinha dum licor dos monges do deserto de ao pé de Córdova... Era necessário também assegurar a intervenção do Céu: e cada uma se prontificou a usar do seu valimento com os santos da sua intimidade: D. Maria da Assunção, que ultimamente praticava com Santo Eleutério, ofereceu a sua influência; D. Josefa Dias encarregava-se de interessar Nossa Senhora da Visitação; D. Joaquina Gansoso afiançou S. Joaquim.

- E lá a menina? perguntou o cônego a Amélia.

- Eu?...

E fez-se pálida, numa tristeza de toda a sua alma, pensando que ela, com os seus pecados e os seus delírios, perdera a útil amizade de Nossa Senhora das Dores. — E não poder ela também concorrer com a sua influência no Céu para restabelecer a perna de Natário, foi uma das amarguras maiores, talvez a punição mais viva que sentira desde que amava o padre Amaro.

Foi em casa do sineiro, daí a dias, que Amaro participou a Amélia o plano do padre-mestre. Preparou-a, revelando-lhe primeiro que o cônego sabia tudo...

- Sabe tudo em segredo de confissão, acrescentou para a sossegar. Além disso ele e tua mãe têm culpas em cartório... Tudo fica em família...

Depois tomou-lhe a mão, e olhando-a com ternura, como compadecendo-se já das lágrimas aflitas que ela ia chorar:

- E agora, escuta, filha. Não te aflijas com o que te vou dizer, mas é necessário, é a nossa salvação...

Às primeiras palavras, porém, do casamento com o escrevente, Amélia indignou-se com espalhafato.

- Nunca, antes morrer!

O quê? Ele punha-a naquele estado e agora queria descartar-se dela e passá-la a outro? Era ela porventura um trapo que se usa e que se atira a um pobre? Depois de ter posto fora de casa o homem, havia de humilhar-se, chamá-lo e cair-lhe nos braços?... Ah, não! Também ela tinha o seu brio! Os escravos trocavam-se, vendiam-se, mas era no Brasil!

Enterneceu-se então. Ah, ele já não a amava, estava fado dela! Ah, que desgraçada, que desgraçada que era!
- Atirou-se de bruços para a cama e rompeu num choro estridente.

- Cala-te, mulher, que te podem ouvir na rua! dizia Amaro desesperado, sacudindo-a pelo braço.

- Não me importa! Que ouçam! Para a rua vou eu, gritar que estou neste estado, que foi o Sr. padre Amaro, e que me quer agora deixar!...

Amaro fazia-se lívido de raiva, com desejo furioso de lhe bater. Mas conteve-se; e com uma voz que tremia sob a sua serenidade:

- Tu estás fora de ti, filha... Dize lá, posso eu casar contigo? Não! Bem então que queres? Se se percebe que estás assim, se tens o filho em casa, vê o escândalo! ... Por ti, estás perdida, perdida para sempre! E eu, se se souber, que me sucede? Perdido também, suspenso, metido em processo talvez... De que queres tu que eu viva? Queres que morra de fome?

Enterneceu-se também àquela idéia das privações e das misérias do padre interdito. — Ah, era ela, era ela que o não amava, e que depois dele ter sido tão carinhoso e tão dedicado, lhe queria pagar com o escândalo e com a desgraça...

- Não, não, exclamou Amélia em soluços, lançando-se-lhe ao pescoço.

E ficaram abraçados, tremendo no mesmo enternecimento, — ela molhando de pranto o ombro do pároco, ele mordendo o beiço com os olhos todos turvos de água.

Desprendeu-se brandamente, enfim, e limpando as lágrimas:

- Não, filha, é uma desgraça que nos sucede, mas tem de ser. Se tu sofres, imagina eu! Ver-te casada, a viver com outro... Nem falemos nisso... Mas então, é a
fatalidade, é Deus que a manda!

Ela ficara aniquilada, à beira do leito, tomada ainda de grandes soluços. Tinha chegado enfim o castigo, a vingança de Nossa Senhora, que ela sentia preparar-se há tempos no fundo dos céus, como uma tormenta complicada. Ai estava, agora, pior que os fogos do Purgatório! Tinha de se separar de Amaro que imaginava amar mais, e ir viver com o outro, com o excomungado! Como poderia ela nunca reentrar na graça de Deus, depois de ter dormido e vivido com um homem que os cânones, o papa, toda a terra, toda o Céu consideravam maldito?... E devia ser esse seu marido, talvez o pai de outros filhos... Ah, Nossa Senhora vingava-se demais!

- E como possa eu casar com ele, Amaro, se o homem está excomungado?!

Amaro então apressou-se a tranqüilizá-la, prodigalizando os argumentos. Era necessário não exagerar... O rapaz, verdadeiramente, excomungado não estava... Natário e o cônego tinham interpretado mal os cânones e as bulas... Bater num sacerdote que não estava revestido não era motivo de excomunhão ipso facto, segundo certos autores... Ele, Amaro, era dessa opinião... De mais a mais podiam levantar-lhe a excomunhão.

- Tu compreendes... Como disse o santo concílio de Trento, e como sabes, “nós atamos e desatamos”. O moço foi excomungado?... Bem, levantamos-lhe a excomunhão. Fica tão limpo como dantes. Não, isso não te dê cuidado.

- Mas de que havemos de viver, se ele perdeu o emprego?

- Tu não me deixaste dizer... Arranja-se-lhe o emprego. Arranja-se-lho o padre-mestre. Está tudo combinadinho, filha!

Ela não respondeu, muito quebrada e muito triste, com duas lágrimas persistentes ao comprido das faces.

- Dize cá, tua mãe não desconfia de nada?

- Não, por ora não se percebe — respondeu ela com um grande ai.

Ficaram calados: ela limpando as lágrimas, serenando para sair; ele de cabeça baixa, trilhando lugubremente o soalho do quarto, pensando nas boas manhãs de outrora, quando só havia ali beijos e risadinhas abafadas; tudo mudara agora, até o tempo que estava todo nublado, um dia de fim de Verão, ameaçando chuva.

- Percebe-se que estive a chorar? perguntou ela, compondo ao espelho o cabelo.

- Não. Vais-te?

- A mamã está à minha espera...

Deram um beijo triste, e ela saiu.

No entanto a Dionísia farejava pela cidade na pista de João Eduardo. A sua atividade desenvolvera-se, sobretudo, mal soubera que o cônego Dias, a ricaço, estava interessado na pesquisa. E todos os dias, à noitinha, esgueirava-se cautelosamente pelo podão de Amaro a dar-lhe as novidades: já sabia que o escrevente estivera ao princípio em Alcobaça com um primo boticário; depois fora para Lisboa; aí, com uma cada de recomendação do doutor Gouveia, empregara-se no cartório dum procurador; mas o procurador, passados dias, por uma fatalidade, morrera de apoplexia; e desde então o rasto de João Eduarda perdia-se no vago, no caos da capital. Havia, sim, uma pessoa que lhe devia saber a morada e os passas: era o tipógrafo, o Gustavo. Mas infelizmente o Gustavo, depois duma questão com o Agostinho, deixara a “Distrito” e desaparecera. Ninguém sabia para onde fora; por desgraça, a mãe do tipógrafo não a podia informar — porque morrera também.

- Oh, senhores! dizia o cônego quando o padre Amaro lhe ia levar estes fios de informação. Oh, senhores! mas então nessa história toda a gente morre! Isso é uma hecatombe!

- Você graceja, padre-mestre, mas é sério. Olhe que um homem em Lisboa é agulha em palheiro. É uma fatalidade!

Então, aflita já, vendo passar os dias, escreveu à tia, pedindo-lhe que esquadrinhasse por toda a Lisboa, a ver se por lá aparecera “um tal João Eduardo Barbosa...” Recebeu uma carta da tia em garatujas de três páginas, queixando-se do Joãozinho, do seu Joãozinho, que lhe fizera a vida um inferno, embebedando-se com genebra a ponto que não lhe paravam hóspedes em casa. Mas estava agora mais tranqüila: o pobre Joãozinho havia dias jurara-lhe pela alma da mamã que dai por diante não beberia senão gasosa. Enquanto ao tal João Eduardo, perguntara na vizinhança e ao Sr. Palma do Ministério das Obras Públicas, que conhecia toda a gente, mas nada averiguara. Havia, sim, um Joaquim Eduardo que tinha uma loja de quinquilharias no bairro... E se fosse o negócio com ele bem ia, que era um homem de bem...

- Lérias! Lérias! interrompeu o cônego impaciente.

Resolveu-se ele então a escrever. E instado pelo padre Amaro (que não cessava de lhe representar o que a S. Joaneira e ele mesmo, cónego Dias, sofreriam com o escândalo) chegou a autorizar ao seu amigo da capital as despesas necessárias para empregar a polícia. A resposta demorou-se, mas veio enfim, prometedora e magnífica! O hábil polícia Mendes descobrira João Eduardo! Somente não lhe sabia ainda a morada, avistara-o apenas num café; mas em dois ou três dias o amigo Mendes prometia informações precisas.

O desespero dos dois sacerdotes, porém, foi grande quando, dai a dias, o amigo do cônego escreveu que o indivíduo, que o hábil policia Mendes tomara por João Eduardo, num café da Baixa, sobre sinais incompletos, era um moço de Santo Tirso que estava na capital a fazer concurso para delegado... E havia três libras e dezessete tostões de despesa.

- Dezessete demônios! — rugiu o cônego, voltando-se para Amaro furioso. — E no fim de contas foi o senhor que gozou, que se refocilou, e sou eu que estou aqui a arrasar a minha saúde com estas andadas, e a fazer desembolsas desta ordem!

- Amaro, dependente do Padre-Mestre, vergou os ombros à injúria.

Mas não estava nada perdido, graças a Deus. A Dionísia lá andava no faro!
Amélia recebia estas noticias com desconsolação. Depois das primeiras lágrimas, a irremediável necessidade impusera-se-lhe, muito forte. Por fim que lhe restava? Dai a dois ou três meses, com aquele seu desgraçado corpo de cinta fina e quadris estreitos, não poderia esconder o seu estado. E que faria então? Fugir de casa, ir como a filha do “Tio Cegonha” para Lisboa, ser espancada no Bairro Alto pelos marujos ingleses, ou como a Joaninha Gomes, que fora a amiga do padre Abílio, levar pela cara os ratos mortos que lhe atiravam os soldados? Não. Então, tinha de casar...

Depois vir-lhe-ia um menino ao fim dos sete meses (era tão freqüente!), legitimado pelo sacramento, pela lei e por Deus Nosso Senhor... E o seu filho teria um papá, receberia uma educação, não seria um enjeitado...

Desde que o senhor pároco lhe afirmara, em juramento, que o escrevente não estava realmente excomungado, que com algumas orações se lhe levantaria a excomunhão, os seus escrúpulos devotas esmoreciam como brasas que se apagam. No fim, em todos os erros do escrevente, ela só podia descobrir a incitação do ciúme e do amor: fora num despeito de namorado que escrevera o Comunicado, fora num furor de paixão traída que espancara o senhor pároco... Ah! Não lhe perdoava esta brutalidade! Mas que castigado fora! Sem emprego, sem casa, sem mulher, tão perdido na miséria anônima de Lisboa que nem a polícia achava! E tudo por ela. Pobre rapaz! No fim não era feio... Falavam da sua impiedade; mas vira-o sempre muito atento à missa, rezava todas as noites uma oração especial a S. João que ela lhe dera impressa num cartão bordado...

Com o emprego no governo civil podiam ter uma casinha e uma criada... Por que não seria feliz, por fim? Ele não era rapaz de botequins, nem de vadiagem. Tinha a certeza de o dominar, de lhe impor os seus gostos e as suas devoções. E seria agradável sair aos domingos de manhã para a missa, arranjada, de marido ao lado, cumprimentada de todos, podendo, à face da cidade, passear o seu filho muito vistoso na sua touca de rendas e na sua grande capa franjada! Quem sabe se, então, pelos carinhos que desse ao pequerrubo e pelos confortos de que cercasse o homem, o Céu e Nossa Senhora se não abrandariam! Ah! para isso faria tudo, para ter outra vez no Céu aquela amiga, a sua querida Nossa Senhora, amável e confidente, sempre pronta a curar-lhe as dores, a livrá-la de infortúnios, ocupada a preparar-lhe no Paraíso um luminoso conchego!

Pensava assim horas inteiras, sobre a sua costura; pensava assim, mesmo no caminho para casa do sineiro; e depois de ter estado um momento com a Totó, muito quieta agora, extenuada da febre lenta, quando subia ao quarto, a primeira pergunta a Amaro era:

- Então, há alguma novidade?

Ele franzia a testa, rosnava:

- A Dionísia lá anda... Por quê, tens muita pressa?

- Tenho muita pressa, tenho, respondia ela muito séria, que a vergonha é para mim.

Ele calava-se; e havia tanto ódio como amor nos beijos que lhe dava — àquela mulher que se resignava assim tão facilmente a ir dormir com outro!
 

Tinha ciúmes dela — que lhe tinham vindo ultimamente desde que a vira conformar-se àquele casamento odioso! Agora, que ela já não chorava, começava a enfurecer-se da falta das suas lágrimas; e secretamente desesperava-se dela não preferir a vergonha com ele à reabilitação com o outro. Não lhe custaria tanto se ela continuasse a barafustar, a fazer um alarido de prantos; isso seria uma prova séria de amor, em que a sua vaidade se banharia deliciosamente; mas aquela aceitação do escrevente agora, sem repugnância e sem gestos de horror, indignava-o como uma traição. Viera a suspeitar que a ela no fundo não lhe “desagradava a mudança”. João Eduardo por fim era um homem; tinha a força dos vinte e seis anos, os atrativos dum belo bigode. Ela teria nos braços dele o mesmo delírio que tinha nos seus... Se o escrevente fosse um velho consumido de reumatismo, ela não mostraria a mesma resignação. Então, por vingança de padre, para “lhe desmanchar o arranjo”, desejava que João Eduardo não aparecesse: e muitas vezes, quando a Dionísia lhe vinha dar conta dos seus passos, dizia-lhe com um mau sorriso:

- Não se canse. O homem não aparece. Deixe lá... Não vale a pena ganhar dor de peito...

Mas a Dionísia tinha o peito forte - e uma noite veio, triunfante, dizer-lhe que estava na pista do homem! Vira enfim o Gustavo, o tipógrafo, entrar para a casa de pasta do tio Osório. Ao outro dia ia-lhe falar, e havia de se saber tudo...

Foi uma hora amargurada para Amaro. Aquele casamento, por que ansiara no primeiro momento de terror, agora, que o sentia seguro, parecia-lhe a catástrofe da sua vida.

Perdia Amélia para sempre!... Aquele homem que ele expulsara, que ele suprimira, ali lhe vinha, por urna destas peripécias malignas em que a Providência se compraz, levar-lhe a mulher legitimamente. E a idéia que ele ia tê-la nos braços, que ela lhe daria os beijos fogosos que lhe dava a ele, que balbuciaria “Oh, João!” — como agora murmurava “Oh, Amaro!” — enfurecia-o. E não podia evitar o casamento; todos o queriam, ela, o cônego, até a Dionísia com o seu zelo venal!

De que lhe servia ser um homem com sangue nas veias e as paixões fortes dum corpo são? Tinha de dizer adeus à rapariga, — vê-la partir de braço dado com o outro, com o marido, irem ambos para casa brincar com o filho, um filho que era seu! E ele assistiria à destruição da sua alegria de braços cruzados, esforçando-se por sorrir, voltaria a viver só, eternamente só, e a reler o Breviário! ... Ali! se fosse no tempo em que se suprimia um homem com uma denúncia de heresia! ... Que o mundo recuasse duzentos anos, e o Sr. João Eduardo havia de saber o que custa achincalhar um sacerdote e casar com a menina Amélia...

E esta idéia absurda, na exaltação da febre em que estava, apoderou-se tão fortemente da sua imaginação que toda a noite a sonhou — num sonho vivido, que muitas vezes depois contou rindo às senhoras. Era uma rua estreita batida dum sol ardente; entre as altas portas chapeadas, uma populaça apinhava-se; pelos balcões, fidalgos muito bordados retorciam o bigode cavalheiresco; olhos reluziam, entre as pregas das mantilhas, acesos num furor santo. E pela Calçada, a procissão do auto-de-fé movia-se devagar, num vasto ruído, sob o tremendo dobre a finados de todos os sinos vizinhos. Adiante os flagelantes seminus, de capuz branco sobre o rosto, dilaceravam-se, uivando o Miserere, com as costas empastadas de sangue: sobre um jumento ia João Eduardo, idiota de terror, com as pernas pendentes, a camisa alva sarapintada de diabos cor de fogo, tendo no peito um rótulo em que estava escrito — POR HEREGE; por trás um medonho servente do Santo Ofício espicaçava furiosamente o jumento; e ao pé um padre, erguendo alto o crucifixo, berrava-lhe aos ouvidos os conselhos do arrependimento. E ele, Amaro, caminhava ao lado cantando o Requiem, de Breviário aberto numa mão, com a outra abençoando as velhas, as amigas da Rua da Misericórdia que se agachavam para lhe beijar a alva. Às vezes voltava-se para gozar aquela pompa lúgubre, e via então a longa fila da confraria dos Nobres: aqui era um personagem pançudo e apopléctica, além uma face de místico com um bigode feroz e dois olhos chamejantes; cada um levava uma tocha acesa, e na outra mão sustentava o chapéu cuja pluma negra varria o chão. Os capacetes dos arcabuzeiros reluziam; uma cólera devota contorcia as faces esfomeadas do populacho; e o préstito ondeava nas tortuosidades da rua, entre o clamor do canto chão, os gritos dos fanáticos, o dobrar aterrador dos sinos, o tlin-tlim das armas, num terror que enchia toda a cidade, - aproximando-se da plataforma de tijolo onde já fumegavam as pilhas de lenha.

E o seu desengano foi grande, depois daquela glória eclesiástica do sonho, quando a criada o veio acordar cedo com água quente para a barba.

Era pois nesse dia que se ia saber do Sr. João Eduardo, e escrever-se-lhe!... Devia encontrar-se com Amélia às onze horas; e foi a primeira coisa que lhe disse, atirando a porta do quarto com mau modo:

- O homem apareceu... Pelo menos apareceu o amigo íntimo, o tipógrafo, que sabe onde a besta pára...

Amélia, que estava num dia de desalento e terror, exclamou:

- Ainda bem, que se acaba este tormento!

Amaro teve um risinho repassado de fel:

- Então agrada-te, hem?

- Se te parece, neste susto em que ando...

Amaro teve um gesto desesperado de impaciência. Susto! Não estava má hipocrisia! Susto de quê? Com uma mãe que era uma babosa, que lhe consentia tudo... O que era, era que queria casar... Queria outro! Não lhe agradava aquele divertimento pela manhã, de fugida... Queria a coisa comodamente, em casa. Imaginava a menina que o iludia a ele, um homem de trinta anos e quatro anos de experiência de confissão? Via bem através dela... Era como as outras, queria mudar de homem.

Ela não respondia, muito pálida. E Amaro, furioso com o seu silêncio...

- Calas-te, está claro ... Que hás-de tu dizer? Se é a verdade pura!... Depois dos meus sacrifícios ... Depois do que tenho sofrido por ti... Aparece-te o outro, larga para o outro!

Ela ergueu-se, e batendo o pé, desesperada:

- Foste tu que quiseste, Amaro!

- Pudera! Se imaginas que me havia de perder por tua causa! Está claro que quis!... - E olhando-a de alto, fazendo-lhe sentir um desprezo de alma muito reta: - Mas nem vergonha tens de mostrar a alegria, o furor de ir para o homem!... És uma desavergonhada, é o que é...

Ela, sem uma palavra, branca como a cal, agarrou o mantelete para sair. 

 

Amaro, exasperado, segurou-a violentamente pelo braço:

- Para onde vais? Olha bem para mim. És uma desavergonhada... Estou-te a dizer. Estás morta por dormir com o outro...

- Pois acabou, estou! disse ela.

Amaro, perdido, atirou-lhe uma bofetada.

- Não me mates! gritou ela. É o teu filho!

Ele ficou diante dela, enleado e trêmulo: àquela palavra, àquela idéia do seu filho, uma piedade, um amor desesperado revolveu todo o seu ser: e arremessando-se sobre ela, num abraço que a esmagava, como querendo sepultá-la no peito, absorvê-la toda só para si, atirando-lhe beijos furiosos que a magoavam, pela face e pelos cabelos:

- Perdoa, murmurava, perdoa, minha Ameliazinha! Perdoa, que estou doido!

Ela soluçava, num pranto nervoso, — e toda a manhã foi no quarto do sineiro um delírio de amor a que aquele sentimento da maternidade, ligando-os como um sacramento, dava urna ternura maior, um renascimento incessante de desejo, que os lançava cada vez mais ávidos nos braços um do outro.

Esqueceram as horas; e Amélia só se decidiu a saltar do leito quando ouviram embaixo na cozinha a muleta do tio Esguelhas.

Enquanto ela se arranjava à pressa diante do bocado de espelho que ornava a parede, Amaro diante dela contemplava-a com melancolia, vendo-a passar o pente nos cabelos — nos cabelos que ele dentro em breve não tornaria a ver pentear; deu um grande suspiro, disse-lhe enternecido:

- Estão a acabar os nossos bons dias, Amélia. És tu que queres... Hás-de-te lembrar algumas vezes destas boas manhãs...

- Não diga isso! fez ela com os olhos arrasados de água.

E atirando-se-lhe de repente ao pescoço, com a antiga paixão dos tempos felizes, murmurou-lhe:

- Hei-de ser sempre a mesma para ti... Mesmo depois de casada.

Amaro agarrou-lhe as mãos sofregamente:

- Juras?

- Juro.

- Pela hóstia sagrada?

- Juro pela hóstia sagrada, juro por Nossa Senhora!

- Sempre que tenhas ocasião?

- Sempre!

- Oh, Ameliazinha! oh, filha! não te trocava por uma rainha!

Ela desceu. O pároco, dando uma arranjadela ao leito, ouvia-a embaixo falar tranqüilamente com o tio Esguelhas; e dizia consigo que era uma grande rapariga, capaz de enganar o diabo, e que havia de fazer andar numa roda-viva o pateta do escrevente.

Aquele “pacto”, como lhe chamava a padre Amaro, tornou-se entre eles tão irrevogável que já lhe discutiam tranqüilamente os detalhes. O casamento com o escrevente consideravam-no como unia destas necessidades que a sociedade impõe e que sufoca as almas independentes, mas a que a natureza se subtrai pela menor fenda, como um gás irredutível. Diante de Nossa Senhor, o verdadeiro marido de Amélia era o senhor pároco; era o marido da alma, para quem seriam guardados os melhores beijos, a obediência íntima, a vontade: o outro teria quando muito o “cadáver”... Já às vezes mesmo tramavam o plano hábil das correspondências secretas, dos lugares ocultos de rendez-vous...

Amélia estava de novo, como nos primeiros tempos, em todo o fogo da paixão. Diante da certeza que em algumas semanas o casamento ia tornar “tudo branco como a neve”, os seus transes tinham desaparecido, o mesmo terror da vingança do Céu calmara-se. Depois, a bofetada que lhe dera Amaro fora como a chicotada que esperta um cavalo que preguiça e se atrasa: e a sua paixão, sacudindo-se e relinchando forte, ia-a de novo levando no ímpeto duma carreira fogosa.

Amaro, esse regozijava-se. Ainda às vezes, decerto, a idéia daquele homem, de dia e de noite com ela, importunava-o... Mas, no fundo, que compensações! Todos os perigos desapareciam magicamente, e as sensações requintavam. Findavam para ele aquelas atrozes responsabilidades da sedução, e ficava-lhe a mulher mais apetitosa.

Instava agora com a Dionísia para que acabasse enfim aquela fastidiosa campanha. Mas a boa mulher, decerto para se fazer pagar melhor pela multiplicidade de esforços, não podia descobrir o tipógrafo — aquele famoso Gustavo que possuía, como os anões de romance de cavalaria, o segredo da torre maravilhosa onde vive o príncipe encantado.

- Oh, senhor! dizia o cônego, isso até já cheira mal! Há quase dois meses à busca dum patife!... Homem, escreventes não faltam. Arranje-se outro!

Mas enfim, uma noite em que ele entrara a descansar em casa do pároco, a Dionísia apareceu; e exclamou logo da porta da sala de jantar, onde os dois padres tomavam o seu café:

- Até que enfim!

- Então, Dionísia?

A mulher, porém, não se apressou: sentou-se mesmo, com licença dos senhores, porque vinha derreada... Não, o senhor cônego não imaginava os passos que se vira obrigada a dar... O maldito tipógrafo lembrava-lhe a história que lhe contavam em pequena, dum veado que estava sempre à vista e que os caçadores a galope nunca alcançavam. Urna perseguição assim!... Mas, finalmente, apanhara-o... E tocadito, por sinal.

- Acabe, mulher! — berrou o cônego.

- Pois aqui está, — disse ela. — Nada!

Os dois sacerdotes olharam-na mistificados.

- Nada quê, criatura?

- Nada. O homem foi para a Brasil!

O Gustavo recebera de João Eduardo duas cartas: na primeira, onde lhe dava a morada, para o lado do Poço do Borratém, anunciava-lhe a resolução de ir para o Brasil; na segunda dizia-lhe que mudara de casa, sem lhe indicar a nova adresse, e declarava que pelo próximo paquete embarcava para o Rio; não dizia nem com que dinheiro, nem com que esperanças. Tudo era vago e misterioso. Desde então, havia um mês, o rapaz não tornara a escrever, donde o tipógrafo concluía que ia a essa hora nos altos mares... — “Mas havemos de vingá-lo!” tinha ele dito a Dionísia.

O cônego remexia pausadamente o seu café, embatocado.

- E esta, Padre-Mestre? exclamou Amaro, muito branco.

- Acho-a boa.

- Diabo levem as mulheres, e o inferno as confunda! disse surdamente Amaro.

- Amén, respondeu gravemente o cônego.

A gravidez de Amélia é repudiada por Amaro. Temeroso de que o escândalo viesse a afetar sua posição na província, o padre tenta convencer Amélia a reatar o noivado com João Eduardo.

Embora não suportasse ver Amélia confortar-se com aquele casamento odioso, temia perder os privilégios que a carreira religiosa lhe vinha concedendo. Amélia, entretanto, o surpreende, garantindo-lhe que os encontros clandestinos permaneceriam depois de seu matrimônio com o escrevente.
 

Capítulo XXIV: Morte de Amélia

O sineiro cerrou a porta, e depois de hesitar um momento:

- Vossa senhoria há-de desculpar, mas... Tinha-me esquecido de todo, com os desgostos que tenho passado. Já há tempo que achei no quarto isto, e pensei que...

E meteu na mão de Amaro um brinco de ouro. Ele reconheceu-o logo: era de Amélia. Muito tempo ela o procurara debalde; soltara-se decerto nalguma manhã de amor, sobre a enxerga do sineiro. Amaro então, sufocado, abraçou o tio Esguelhas.

- Adeus! adeus, Escolástica. Lembrem-se por cá de mim. Dê lembranças ao Matias, tio Esguelhas...

O moço afivelou a maleta ao selim, e Amaro partiu, deixando a Escolástica e o tio Esguelhas a chorar, ambas à parta.

Mas depois de ter passado os açudes, ao pé duma volta da estrada, teve de apear para compor o estribo: e ia montar, quando apareceram dobrando o muro o doutor Godinho, o secretário-geral e o senhor administrador do concelho, muito amigos agora, e que vinham, depois do passeio, recolhendo para a cidade. Pararam logo a falar ao senhor pároco — admirando-se de o ver ali, de maleta na garupa, com ares de jornada...

- É verdade, disse, vou para Lisboa!

O antigo “Bibi” e o administrador suspiraram invejando-lhe a felicidade. — Mas quando o pároco falou da irmã moribunda, afligiram-se com polidez: e o senhor administrador disse:

- Deve estar muito sentida, compreendo... De mais a mais essa outra desgraça na casa daquelas senhoras suas amigas... A pobre Améliazinha, morta assim de repente...

O antigo “Bibi” exclamou:

- O quê? A Améliazinha, aquela bonita que morava na Rua da Misericórdia? Morreu?

O doutor Godinho também o ignorava, e pareceu consternado.

O senhor administrador soubera-o pela sua criada, que o ouvira da Dionísia. Dizia-se que fora um aneurisma.

- Pois senhor pároco, exclamou “Bibi”, desculpe se aflijo as suas crenças respeitáveis, que são as minhas de resto... Mas Deus cometeu um verdadeiro crime... Levar-nos a rapariga mais bonita da cidade! Que olhos, senhores! E depois com aquele picantezinho da virtude...

Então, num tom de pêsames, todos lamentaram aquele golpe que devia ter afetado tanto o senhor pároco.

Ele disse muito grave:

- Senti-o deveras... Conhecia-a bem... E com as suas boas qualidades, devia fazer, sem dúvida, uma esposa modelo... Senti-o muito!

Apertou silenciosamente as mãos em redor — e enquanto os cavalheiros recolhiam à cidade, o padre Amaro foi trotando pela estrada, que já escurecia, para a estação de Chão de Maçãs.

Ao outro dia, pelas onze horas, o enterro de Amélia saiu da Ricaça. Era uma manhã áspera: o céu e os campos estavam afogados numa névoa pardacenta; e caía muito miúda, uma chuva regelada. Era longe da quinta à capela dos Poiais. O menino do coro adiante, de cruz alçada, apressava-se, chapinhando a lama a grandes pernadas; o abade Ferrão, de estala negra, abrigava-se, murmurando o Exultabunt Domino, sob o guarda-chuva que sustentava ao lado o sacristão com o hissope; quatro trabalhadores da quinta, abaixando a cabeça contra a chuva obliqua, levavam numa padiola o esquife que tinha dentro o caixão de chumbo; e, sob o vasto guarda-chuva do caseiro, a Gertrudes de mantéu pela cabeça ia desfiando as suas contas. Ao lado do caminho o vale triste dos Poiais cavava-se, todo pardo na neblina, num grande silêncio; e a voz enorme do vigário, mugindo o Miserere, rolava pela quebrada úmida onde murmuravam os riachos muito cheios.

Mas às primeiras casas da aldeia os moços do caixão pararam derreados; e então um homem, que estava esperando debaixo duma árvore sob o seu guarda-chuva, veio juntar-se silenciosamente ao enterro. Era João Eduardo, de luvas Pretas, carregado de luto, com as olheiras cavadas em dois sulcos negros, grossas lágrimas a correrem-lhe nas faces. E imediatamente, por trás dele, vieram colocar-se dois criados de farda, com as calças muito arregaçadas e tochas na mão — dois lacaios que mandara o Morgado, para honrar o enterro duma dessas senhoras da Ricoça, amigas do abade.

Então, vendo estas duas librés que vinham afidalgar o préstito, o menino do coro rompeu logo, erguendo mais alto a cruz; os quatro homens, já sem fadiga, empertigaram-se às varas da padiola: o sacristão bramiu um Requiem tremendo, E pelas lamas do íngreme caminho da aldeia foi subindo o enterro, enquanto às portas as mulheres se ficavam persignando, olhando as sobrepelizes brancas e o caixão de galões de ouro, que se iam afastando seguidas do grupo de guarda-chuvas abertos, sob a chuva triste.

A capela era no alto, num adro de carvalheiras: o sino dobrava: e o enterro sumiu-se para o interior da igreja escura, ao canto do Subvenite sancti que o sacristão entoou em ronco. — Mas os dois criados de farda não entraram porque o Sr. Morgado assim o tinha ordenado.

Ficaram à porta, sob o guarda-chuva, escutando, batendo os pés regelados. Dentro seguia o cantochão; depois era um ciciar de orações que se amortecia; e de repente latins fúnebres lançados pela voz grossa do vigário.

Então os dois homens, enfastiados, desceram do adro, entraram um momento na taberna do lia Serafim. Dois moços de gado da quinta do Morgado, que bebiam em silêncio o seu quartilho, ergueram-se lago vendo aparecer os dois criados de farda.

- À vontade, rapazes, é sentar e beber — disse o velho baixito que acompanhava João Eduardo a cavalo. Nós lá estamos, na maçada do enterro... Boas-tardes, Sr. Serafim.

Apertaram a mão ao Serafim, que lhes mediu duas aguardentes — e informou-se se a defunta era a noiva do Sr. Joãozinho. Tinham-lhe dito que morrera duma veia rebentada.

O baixito riu:

- Qual veia rebentada! Não lhe rebentou coisa nenhuma. O que lhe rebentou foi um rapagão pelo ventre...

- Obra da Sr. Joãozinho? — perguntou o Serafim, arregalando o olho brejeiro.

- Não me parece — disse o outro com importância.

- O Sr. Joãozinha estava em Lisboa... Obra de algum cavalheiro da cidade. Sabe vossemecê de quem eu desconfio, Sr. Serafim?

- Mas a Gertrudes, esbaforida, rompeu pela taberna gritando que o saimento já ia ao pé do cemitério, e que não faltavam senão “aqueles senhores”! Os lacaias abalaram logo, e alcançaram o enterro quando ia passando a pequena grade do cemitério, ao último versículo do Miserere. João Eduardo agora levava uma vela na mão, ia logo atrás do caixão de Amélia, tocando-o quase, com os olhos enevoados de lágrimas fitos no veludilho negro que o cobria. Sem cessar o sino na capela dobrava desoladamente. A chuva caía mais miúda. E, todos calados, no silêncio fusco do cemitério, com passas abafados pela terra mole, iam-se dirigindo para o canto do muro onde estava cavada de fresco a cova de Amélia, negra e profunda entre a relva úmida. O menino do coro cravou no chão a haste da cruz prateada, e o abade Ferrão, adiantando-se até à beira do buraco escuro, murmurou o Deus cujus miseratione... Então João Eduardo, muito pálido, vacilou de repente, e o guarda-chuva caiu-lhe das mãos; um dos criados de farda correu, segurou-o pela cinta; queriam-no levar, arrancá-lo de ao pé da cova; mas ele resistiu e ali ficou, com os dentes cerrados, segurando-se desesperadamente à manga do criado, vendo o coveiro e os dois moços amarrarem as cordas no caixão, fazerem-no resvalar devagar entre a terra esfarelada que rolava, com um ranger de tábuas mal pregadas.

- Requiem aetemam dona ei,  Domine!

- Et lux perpetua luceat ei, mugiu o sacristão.

O caixão bateu no fundo corri uma pancada surda: o abade espalhou em cima uma pouca de terra em forma de cruz: e sacudindo lentamente a hissope sobre o veludilho, a terra, a relva em redor:

- Requiescat in pace.

- Amém — responderam a voz cava do sacristão e a voz aguda do menino do coro.

- Amém — disseram todos num murmúrio, que ciciou, se perdeu entre os ciprestes, as ervas, os túmulos e as névoas frias daquele triste dia de Dezembro.

Às vésperas do parto, Amaro decide entregar a criança a uma “tecedeira de anjos” (mulher que se dedicava a cuidar de crianças enjeitadas), para evitar que a mãe o visitasse e deixasse espalhar algum boato quanto à sua filiação. Convencido de que a vida na terra era penosa demais para crianças tão inocentes, procura Sra. Carlota, tecedeira de anjos, com quem acerta o destino do nascituro.

Depois do parto, a criança é entregue a Carlota. Amélia morre.
 
 

BIBLIOGRAFIA

Da Cal, Ernesto Guerra. Língua e Estilo de Eça de Queiroz. 
4ª ed., Coimbra, Almedina, 1981.

Faro, Arnaldo. Eça e o Brasil. São Paulo, Nacional, 1977.

Moisés, Massaud. A Literatura Portuguesa. São Paulo, Cultrix, 1994.

Queiroz, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Lisboa, Livros do Brasil, s/d.

Reis, Carlos. Estatuto e Perspectivas do Narrador na Ficção de Eça de Queirós. 2ª ed. Coimbra, Almedina. 1981

Saraiva, Antônio José. As Idéias de Eça de Queirós. Lisboa, Bertrand, 1982.

Simões, João Gaspar. Eça de Queirós, a Obra e o Homem. Lisboa, Arcádia, 1978.
 

NOTAS

1. Simões. João Gaspar. Eça de Queirós, a Obra e o Homem.
Lisboa, Arcádia, 1978. 

2.  Estatuto e Perspectivas do Narrador na Ficção de Eça de Queirós. 2ª ed. Coimbra, Almedina, 1980, p. 57.
3. Ibid., p. 58.
4. O Crime, do Padre Amaro, p. 64.
5. Língua e Estilo de Eça de Queiroz. 4ª ed., Coimbra, Almedina, 1981. p. 237.
6. Da Cal, Ibid., p. 69.
7. Ibid., p. 183.
8. Ibid, p.188

Estudo feito pelo Curso Universitário
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