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                                  Escola literária, estilo de época

Camilo Castelo Branco pertence ao ultra-Romantismo em Portugal, desenvolvido entre 1838 e 1860: "... livres para gozar o prazer da aventura no mundo da imaginação e da anarquia, acabam tomando atitudes extremas e transformando-se em românticos descabelados. Com isso, praticam o ideal romântico na parte da sensibilidade e da liberdade moral: e, sendo cem por cento românticos, ultrapassam os limites da estética e tornam-se os chamados "ultra-românticos". (...) Embora o ultra-Romantismo se coadune essencialmente com a poesia, muito dos seus ingredientes também são expressos em prosa. Muda, porém, o local onde se passam os acontecimentos: a poesia localiza-se predominantemente em Coimbra, a prosa se deriva do ambiente hipersensível do Porto nos anos seguintes a 1850. Representa-a sobretudo Camilo Castelo Branco, em cujas novelas se condensam não poucas matrizes ultra-românticas, resultantes de sua aventuresca existência de donjuan e do clima literário e social respirados nas andanças portuenses."

 

A vida trágica, as aventuras pessoais marcam profundamente a obra que o escritor produz e "... Cedendo aos padrões impostos pelo gosto burguês, Camilo cometeu, toda a sorte de delizes próprios da vertente folhetinesca: inverossimilhança, pobreza psicológica em favor da riqueza anedótica, facilidade na sugestão de atmosferas de terror e mistério a ponto de cair no convencional, literatura de entretenimento, etc.

Todavia, o eixo ao redor do qual gira toda a importância de Camilo é constituído pela novela passional. Embora não a tivesse introduzido em Portugal (o papel cabe a D. João de Azevedo, o autor d' O Cético e O Misantropo , e a Antônio Pedro Lopes de Mendonça, autor de Cenas da Vida Contemporânea e Memórias de um Doido), definiu-a no gosto do público e nos ingredientes fundamentais, monopolizou-a totalmente depois de certa altura e tornou-se-lhe o mais alto representante. Para alcançá-lo, Camilo contava com determinados favores, dentre os quais predominavam os lances de aventura galante com que pontilhou sua existência e um especial talento e sensibilidade para tratar dos problemas do coração.

A novela camiliana muda apenas e sempre no tocante ao enredo, embaralhado e variado até onde permitia a imaginação do ficcionista: altera-se constantemente a disposição dos ingredientes, a tessitura episódica, o ponto de vista em que se coloca o novelista, mas o módulo central permanece invariavelmente o mesmo. Na verdade, parte sempre duma situação única para estabelecer em cada narrativa uma das inúmeras variações que lhe estão implícitas: sempre o amor impossível e superior, ou marginal aos preconceitos sociais, que brota do mais fundo da carne e da alma, levando ao desvario os apaixonados com as promessas duma bem-aventurança via de regra malograda.

Sentimento incendiário, vulcânico, impetuoso e alucinante, realiza-se livremente à margem da revelia do casamento, mas em nítido litígio contra restos inconscientes do moralismo burguês, visíveis na perturbação operada no nível dos impulsos, refletindo dores de consciência provocados pela coerção social. Estas, em vez de amortecer, estimulam ainda mais o processo amoroso, transformando-o numa violenta e invencível paixão que conduz as personagens a comportar-se com furor quase primitivo, instintivo, pré-lógico. Exaltadas ao limite da anestesia moral, as personagens ganham força e justificativa para enfrentar as injunções do meio e da consciência, e dar livre expansão ao impulso dos sentidos e dos sentimentos. (...)

Tanto é assim que Camilo oscila entre os extremos, ora fazendo as personagens lograrem ser desvairado intento, mas submetendo-as às sanções sociais, como a ida para o convento, o suicídio e a loucura (Carlota Ângela, 1858; Estrelas Funestas, 1862; Amor de Perdição, 1862; A Doida do Candal, 1867), ou revelando-as destituídas de suportes morais ou espirituais capazes de assisti-las no vácuo que se forma ao fim de toda paixão, por mais ardente que seja (Onde está a felicidade?, 1856; Um homem de brios, 1856; memórias de Guilherme Amaral, 1865). (...)

Outro dom superior de Camilo que cumpre lembrar: o de ser um contador nato de histórias, dono de um estilo todo seu, e que fez escola, de quem conhece os segredos da Língua, tanto a erudita, como a popular ou regional. Muito do mérito e do fascínio camiliano, - fascínio persistente ainda hoje, como atesta o grande número de estudiosos e admiradores de sua obra, - vem daí. Diga-se de passagem, Camilo compreendeu lucidamente a importância do apuro da linguagem como condição de sobrevivência de suas novelas. No prefácio à segunda edição do Amor de Perdição, datado de 1865, confessa: "Estou quase convencido de que o romance, tendendo a apelar da iníqua sentença que o condena a fulgir e apagar-se, tem de firmar sua duração em alguma espécie de utilidade, tal como o estudo da alma, ou a pureza do dizer. E dou mais pelo segundo merecimento; que a alma está sobejamente estudada e desvelada nas literaturas antigas, em nome e por amor das quais muita gente abomina o romance moderno, e jura morrer sem ter lido o melhor do mais apregoado autor."

É com justiça considerado mestre e clássico do Idioma."

(Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa, Cultrix, 1988, p. 144)

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